"Se quisermos, podemos viver em um mundo de ilusão reconfortante" Noam Chomsky
Os costumes aprisionam. Você pode achar que
não. Pode deixar de ler a partir de agora.
Se continuar é por sua própria conta
e risco.
Você percebe que há algo de errado com as pessoas, a maioria
delas, quando vê alguém vociferar barbaridades, ofensas, e o outro
compreensivo, solícito, sorri de volta. Bovino.
Ou quando alguém pisa no pé sem querer, esbarra, e a
resposta é um tiro, uma facada.
Se começa uma frase, uma pergunta simples na rua, e o outro
responde antes de terminar, antes mesmo de você começar a dizer, responde em
piloto automático respostas que nada tem a ver com a pergunta.
Por um momento se pergunta se estão todos loucos. Mas o
louco aqui é você por se perguntar isso. Questionar é proibido. Se não é proibido é mal visto, olhares censuram, você é
inibido.
Questionar levará você ao martírio de concluir o adoecimento
geral de comunidades inteiras, quiçá a população absoluta.
“Há algo de estranho acontecendo” sua consciência
continua a assinalar o alerta.
As pessoas estão cada dia mais parecidas, as
opiniões se assemelham, ninguém discorda mais pra não ser ‘do contra’,
divergências são perigosas, tudo parece uma harmonia de plástico, sorrisos
ensaiados, a submissão um mode on de
viver. Mas algumas pessoas são mais iguais que outras.
A apatia, e o marasmo, é a doença social que tem
se espalhado e contaminado como epidemia, e é exatamente este o objetivo
almejado, o condicionamento de caráter, começa em você, e no outro ao seu lado,
paralelamente.
Vamos conjugar juntos o verbo da vez, “eu me
alieno, tu se aliena, ele se aliena, nós alienamos você, vós alienais aos outros...”
Como nos provêm entretenimento – famoso pão e
circo – há séculos eficaz para o entorpecimento do raciocínio.
Horas extenuantes de trabalho levam a pessoa a
aceitar tudo, chegar exausto, comer (ou engolir), dormir pesado e sem
sonhos. Que já é tarde, e amanhã levantar cedo para fazer o mesmo que hoje. E
fazer o mesmo que depois de amanhã, e depois de depois, seguidamente. Portamos-nos como cordeiros de mansidão,
domesticados, sem vontade, a não ser a de consumir um pouco mais aquilo de que não
precisamos.
Os dias se parecem, as pessoas se parecem. As
conversas iguais, parecem monólogos em grupo.
E algumas, ainda mais que outras.
A atitude
que prevalece é o da passividade submissa, absurdos passam a ser a realidade
habitual. Nos ônibus, as pessoas estão vidradas na TV, e nem olham mais pra
fora.
Dentro das casas, a TV, substitui as relações, e
no caso, parece muito bem vinda, pois permite as pessoas “conviveram
tranquilamente” sem precisar se comunicar.
Já que falar, apenas, não significa necessariamente
se comunicar.
Chegou-se a um ponto tal, que ser passivo além de
ser a atitude predominante, é também a atitude esperada por todos de você.
O perigo é se você resolve abrir a boca, o verbo,
e desafiar o consenso, perguntando algo imprevisível e ameaçador, como o
planejamento do governo para os gastos públicos neste ano. Ou como estão
frágeis as relações, se deteriorando...
Ou o supremo ato anarquista de imprevisibilidade:
como foi que as pessoas pararam de reagir, a perder sua humanidade para robôs
adestrados?
Não é a Traição da Harmonia, e Paz Social ?
Há algo de estranhamente doentio, quando as
pessoas pedem voluntariamente para fazer sua lavagem cerebral. Rotineiro e insidioso costume.
Imperiosamente lavamos nossas almas, nossas
mentes, nossos duros e frios corações, e por fim lavamos as mãos tal qual Pôncio
Pilatos, nos livrando do peso da responsabilidade individual, e destituindo a
razão de ser e agir. Em cada lavagem
cerebral, que fazemos diariamente, há a sombra de Pilatos, sorrindo satisfeito,
a anulação da vontade pessoal.
Outro dia vi um homem conversando com uma
estátua. Sim, uma estátua de monumento, e ao seu lado ele falava animadamente,
talvez sobre esportes, futebol.. Algum ópio comum, difícil de largar. Parava e parecia ouvir respostas. Estranhezas
cotidianas.
Noutro dia, um velho com roupas maltrapilhas,
dividia sua única refeição com um cachorro. Dividia metade de cada pedaço pra cada, em
partes iguais. Acho que dormiam juntos também, comiam juntos, e vagavam juntos
por outros abrigos, quando por alguma razão este já não servia mais. Tratava-o
bem, pensei. Talvez um cão seja mais próximo de nossa desumanidade que um
humano, parece ser. (E só porque ele não nos julga como fazemos).
Percebo que há superpopulação nas mesmas
condições. As ruas estão apinhadas. Os condomínios vazios e entrincheirados de
grades. A jaula em que nos metemos, sorrindo e achando que somos livres e
seguros.
As pessoas andam com pressa, as expressões
tensas. Desconfiança sempre. O outro é o inimigo. O medo é nossa companhia constante. Não nos abandona nem quando vamos dormir. Ah,
mas o sono é pesado, é cansado, já não sonhamos mais. Nem deitados, nem
despertos. É mais um estado de hibernação resignada, compartilhada. E só
conseguimos suportar, pensando que a desgraça alheia é ainda pior., o vizinho
deve estar tão cansado quanto eu mesmo, ou talvez mais. Infortúnios coletivos
embalam o sono.
Já tentou abrir uma gaiola de pássaro em
cativeiro? O pássaro não vai voar. Não adianta tentar, é garantido. Talvez nem
saiba, ou se lembre como fazer isso. Há gerações inteiras que nascem em
gaiolas; de vidro, de metal nobre, de latão enferrujado e gasto, e em tão
sofisticadas embalagens de gaiolas, que em cativeiro social nunca souberam o
que é o ar livre, ou voar... Algo tão distante que muitos dizem ser delírio dos
antigos. Como se assim fosse o natural - invertido. Antinatural assimilado. Nossa
caverna de Platão que tanto adoramos e a defendemos, com argumentos tortos, ou
sangue, se for preciso.
O Estado de Sítio já se instalou, mas letárgicos
e retardados que somos, achamos que é um estado democrático. Sim,
democraticamente apático. Máxima piada triste e sem graça que rimos
constrangidos.
Com as lavagens cerebrais diárias, o esvaziamento
interno é absoluto, assim como todo o conteúdo escorre pelo ralo e esgoto. O
divertimento fútil que consumimos e somos consumidos.
Se por acaso, alguém pergunta demais, ou pior,
acontece de questionar uma regra, nega uma obediência, dissimula uma ação
inesperada, é certo que haverá represália.
O mais comum é que já tenhamos embutida a
autocensura. Então no momento exato em que pensamos agir diferente; nossa
censura, nos paralisa: a voz coletiva já foi internalizada e funciona com
eficiência impecável. A máquina repressora de nossa consciência já capenga.
Chegamos a uma época histórica a que vivemos
hoje, época em que não é preciso nenhum regime político totalitário, em que as
forças armadas militares não precisam ser acionadas, nem as ordens precisam ser
impostas pelos meios de comunicação dos partidos políticos. As regras são
sutis, mas incisivas. A falsa democracia é abraçada e defendida pela população.
Os dissidentes, os contrários, desviantes são ignorados, minimizados, e
desqualificados por todos.
A ditadura interna é a vigília e defesa para a
banalidade em que todos aceitam, em uníssono. Um coro igual e assustador está ecoando
entre as portas, janelas, ultrapassando as diferenças, e reduzindo-nos `a
fantoches idiotamente felizes.