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novembro 25, 2018

Uma célula, um átomo
distônico
que liberdade escrever, renascer!
me vangloriando das concordâncias e reticências subliminares

quanto a gente fala, e nem sente
quantos livros lidos, as falas perdidas
entrecortadas, incomensuráveis
ansiosos vir aléns (disse aliens)
E eu:
Esses incontáveis  vapores
horrores,
suores
sabores,
agora posso ser boba, agora posso ser puta
quem vai me julgar com as lentes morais da pequenez?
lógica disfóbica
agora não demova minhas estratégias d'empoderamento
e despudoramento

a gente fala de livros e profundidades,
com tanta reverência,
mas pouco fala de
amor.  Essa palavra-tabu.

voz corpo alma grito veloz alcança o sub tons em meio a sons
 f e l i c i d a d e  é errar...
Ah, mas com tal maestria,
e desembaraço autêntico...!


novembro 07, 2018

Perfumar o olhar

mas tudo isso baby,
é só porque a gente tá viva
e vivendo os dias.
tem (des)encanto
tem (des)encontro
mas tem poesia.
E é vivendo no how-now ,vibe agoraespanto
espantando mágoas
ou futurista da magika, ansiando os amanhãs;
vibrando o hoje.
E é só porque a gente tá vivo
e vivendo as agruras
se sente forte, e inteira.
Respirando, e pirando às vezes: dá vontade de rir e chorar
simultâneo
dessa tragicomédia tupiniquim brasileira
e fuleira.
e é só porque é sério, muito sério,
tudo isso,
que tenho necessidade imensa de brincar.
fazer cócegas na realidade q arde
perfumar o olhar.




novembro 03, 2018

Levantar e continuar

...manter o Amor.
Recomeçar, sim.  Depois da eleição, e dos dias difíceis, intermináveis que se passaram. Existir. Se cuidar, cuidar dxs outrxs. O ultimo domingo, da contagem de votos, acabei indo pro Rio Vermelho com uma amiga, não ficamos nem 10 minutos. O clima senti estranho desde ali, senti que íamos perder. Os rostos angustiados, tensos, ansiedade. Mas eu continuava com minha esperança. Houve briga, violência policial lá, uma pessoa que estava comigo, conosco nas ações de Vira Voto, foi agredida de forma brutal, e foi hospitalizada. Soube depois que se recuperou, e está bem. Até saber, fiquei louca querendo ir até o hospital, vê-la, saí pedido informações dos grupos, queria achar o hospital, ao mesmo tempo que me acalmava e tentava acalmar/confortar as companheiras.
Na casa de minha amiga, chegamos já com o resultado em forma de fogos, de gritos "Bolsonaro presidente" "morte aos petralhas" "morte a Lula", ...
Os prédios gritavam, isso foi me dando aperto no peito. Não sei descrever. Não era desespero, era tristeza enorme, e descrença.   Não consegui comer, não bebi quase nada. E queria não ficar sóbria queria esquecer de tudo, apagar, esquecimento. Mas fiquei, com o corpo doído, sem voz, inacreditavelmente pensativa...e revoltada. ''Amanhã continuar, amanhã sim insistir, porque o hoje, é amargo demais, mas amanhã vou estar viva ainda, e vou continuar tentando..." Se a experiência da realidade me mostra o vazio, é isso que vou digerir. É isso apenas que vou sustentar, e ficar com.
Saí andando, já bem mais tarde da casa da amiga, fui andando até a minha, e tanto sentimento dentro. É mistura de tanta coisa, de esvaziamento, de querer preencher, mas sem saber o que cabe, porque o coração morreu um pouco aquela noite...

Nos dias que seguiram fiquei em silêncio. saí de vários grupos de ações em que estava.
Mas ainda estou num grupo, nos encontramos, nos reunimos, falamos, desabafamos, nos escutamos.
Houve dinâmica pra acolher. Houveram abraços. Soubemos até sorrir. E não foi difícil.  Foi muito, muito bom. Força, estamos juntas, vamos continuar juntas e fortes.  Planejamos outras ações, outro foco, reorganização, planejamento, reestruturação.  Isso tudo nos organiza internamente também.
Saímos de lá todas bem, que bom estar entre as mulheres, grupo de resistência, fortalecida!  Saímos com ideias concretas, e novas datas e posturas. Então o que temos, na pós ressaca de eleição não é nenhum paraíso, mas também nem o outro extremo, de escombro emocional, mas um caminhar possível, e contínuo. Aos poucos...
 O Amor vai continuar: nas ruas, nas nossas casas, até entre os familiares, estamos empenhadas em achar o modo, os caminhos pra isso.  É preciso continuar, é preciso

novembro 02, 2018

Terra dos Ossos



 “Para existir basta abandonar-se ao ser
Mas pra viver
É preciso ser alguém
É preciso ter um OSSO,
É preciso não ter medo de mostrar o osso
E arriscar-se a perder a carne.
Homem sempre preferiu a carne
à terra dos ossos.”

Antonin Artaud, trecho de ‘Pra acabar com o Julgamento de Deus’, transmissão radiofônica. 


outubro 28, 2018

Um copo de cólera

* Solo-manifesto de Roberta Nascimento, apresentado na Mostra Devires,
em outubro de 2018, no Goethe-Institut Salvador (ICBA).
Assisti um espetáculo, que realmente  nos faz pensar nesses tempos, assisti algo que já havia visto e ouvi tantos anos antes. Já havia lido com Marcelo Rubens Paiva, já havia lido com Saramago houveram tantos avisos...
Repetição dos atos, civis, e coletivos.
Espetáculo tinha o ritmo ofegante e angustiante da leitura dos milhares de presos políticos. Leitura incômoda, dolorosa da verdade. Passado que se faz presente. Repetimos.
É uma mãe que está sendo amordaçada e estuprada, é um irmão de alguém, que lhe é arrancada as unhas, uma adolescente que é golpeada e leva choques...  São inúmeros relatos sem fim...
Ouvia, sentia todos se constrangerem: o rosto que a gente vira de lado pra criança na rua.
É o mendigo que já faz parte da paisagem.
São os idosos que não conseguimos nem olhar, que dirá sentir a solidão...
A Constituição Federal Brasileira na foto triturada no liquidificador com sangue, suor e lágrimas ( por ironia os mesmos do Carnaval).
É do esquecimento de todos os humilhados, marginalizados, retirados da dignidade
todas que vivem na miséria subhumana, que retornam pra exigir que os olhemos, que pensemos neles, que nos horrorizam e causam piedade ao mesmo tempo.
Que existem, que respiram sobrevivendo nas esquinas, das cidades, dos interiores do campo, as (os) campesinos, nos quilombos, nas aldeias, nos guetos lésbicos/gays, LGBTTS.
Festa da democracia! Dos demonizados e exilados, apartados da cultura, dos bons modos e bons costumes. Que voltem! E tomem todos os espaços.
Um réquiem pros condenados . 
Os esquecidos agora serão notícia. Mais extermínio, pra validar nosso "estilo de vida" tão caro...

Há muitos anos vou em passeatas, vou em comícios, o mesmo dizem em livros, o mesmo foi dito no show de Roger Waters, o mesmo disseram os economistas mais influentes no mundo, cientistas políticos avisaram, psicólogos se posicionaram, sociólogos, governantes oposicionistas, juízes antipetistas: todos. Todas as categorias de pessoas do mundo civilizado, respeitoso, de prestígio dizendo o mesmo: a barbárie no voto brasileiro.
O que estávamos esperando?
Esperei até hoje que a sensatez fosse prevalecer.
É a festa da dor, do sadismo, da maldade.

Todos e todas fizeram como se isso fosse impossível. Todos e todas, fecharam seus olhos ao óbvio!
Mas nem ter medo, ou paralisar, a vontade de reagir é maior.

Agora, há urgências que me movem. O inacreditável, se faz presente.
é preciso mais que palavras, mais que ditos vazios. Mais que posturas de ativismo de sofá.
 Me nutro de meus amigos e de suas indignações, que são as minhas. Fiz nova família.
 É um copo de cólera que vamos todos beber amargando os dias. Exclusões que nos excluem também.
 Por livre escolha democrática, claro..

"...portanto companheiros, não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir,
vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda"
                                                                                
Caio Fernando Abreu viadamente me lembrando e insistindo,
E Chico, pra sempre repetindo :





setembro 29, 2018

Sobre a imposição às mulheres

Que nenhuma pessoa imponha como devo sentir, me comportar e ser.
Que recuse toda e qualquer submissão de caráter em direção ao proveito ou satisfação alheia.
Que recuse, reaja, rejeite e combata qualquer ameaça de moralidade, destinação de conduta real, espiritual, ou de qualquer ordem.
Que manifestações opressivas sobre a feminilidade, seus ciclos e a natureza feminina pra docilizar, obedecer, e amansar sejam destruídas.
Nenhum comportamento seja explícito, ou oculto, de se tentar domar uma natureza selvagem, lasciva, intuitiva, e exuberante, deve ser tolerado ou sequer considerado.

Tentativas de se tolher a natureza feminina selvagem foi há séculos, e ainda hoje violências, mas com a grande diferença atual da reação, natural à investida de domesticação e adequação às instituições do patriarcado, sejam leis instituídas, sejam de oralidade aceita e imposta. De amordaçar, de subjugar, minimizar, humilhar, desacreditar: serão rechaçadas.

Nenhum muro mais. Nenhum impedimento a ser o que se é. Nenhum controle que não seja superado por sua resistência e de contra-controle natural.

setembro 17, 2018

Pagu song

Ela caminha por esse mundo
 como se esse mundo fosse dela.
Como se o mundo (todo ele) fosse antigo e conhecido.
 É caminhar dissonante,
caminha errante
vê e sente a natureza como parte sua
pode ser cruel e acolhedora,
dúbia, sincrônica, alheia.
Tem olhos grandes,
como grande é a alma
e se assusta, por isso morde,
 com as barreiras normais,
as barreiras sociais, a mesquinhez
 a improbabilidade de viver entre os seus.
É dar cada passo, farejando os estados.
Retalhos.
Reconhecendo.
Pode estar nesse mundo agora
tão verdadeira é a força de sua vontade
volição
coração
está vestindo agora as roupas humanas
como se sempre fosse humana.
Como se sempre fizesse parte dessa constituição
 não há dúvidas
 Ela se veste bem, quase passa por humana.
Num instante, e em outros
agarrou outra vibração, avatar mal carcomido
se transformou
Agora, quem ela é:
Eu não ouso dizer
Não reconheço sua pele
seu olhar mudou
Como mudou seu farejar o mundo
Ela agora é outro ser, pele molhada cheia de dores
irreconhecível.
Caminhava, como se soubéssemos, desde sempre
as pistas, as pegadas, o faro, a pele,
mas tudo mudou.
Ela é só mais  uma, caminhante,
com seus quereres, que antes não rimavam
e agora menos ainda.




setembro 01, 2018

Travessuras por gostosuras

Egon Schiele - two lesbians 
Troco minha sanidade :

quero uivo, o sibilar das serpentes
a rasteira feroz doce árida
contorcionismo
troco desejos banais por viadagens instáveis
faço o que eu quiser
doçuras por gostosuras
não tenho nome
endereço
caminhei pra me perder da minha história
Conto outras histórias
Sou outro, e não me reconheço
ampliei, desdenhei, vou roer suas dúvidas
mastigar as necessidades
arranhar seu orgulho puído
alimento sua ânsia de entender
adoro olhar pra inconcretude
[quero teu cérebro]
repercussões das trevas gostosas
um prazer essas putarias
oh, mas com outros nomes...
mais cabíveis. Mais normativas
mais outros...
 Não sou tão má, só queria devorar o asco, a misoginia
e se sobrasse algo mais
era bônus, muito real, muito comível.

Você entrou nos meus sonhos, exigindo criações reais.
exigindo amor em pedaços concebíveis.....
E isso, é inadmissível.
Gostou,

Gostosa, e ser um câncer.
Que tal eu ser seu ego auxilar
e as coisas não ditas, direi aqui
quero dizer lindamente, soberbamente,
posso criar a maior honra, e meu maior crime
todos juntos {juro}
se assemelham.


Ao fim, todos e tudo, ruídos queridos, tem o mesmo nome:
 De fato, quando comecei, já sabia o fim.
Outras coisas complemen_ares.






agosto 31, 2018

"shine on, you crazy diamond"

Aquilo que disse à minha mãe era verdade
Continuei dizendo
[Verdades repetidas, agora são conferidas]
Eu dei um último aviso
uivo infinito
me envergonhei e me orgulhei, de tudo que não me dizia respeito
senti falta de tudo aquilo que achei que era conhecido por anos em familia
mas eram ultras-outras coisas
pensar dá trabalho

"vc tinha o tamanho certo'
"era uma menina!!!''
'' mãos pequenas, o corpo dos meninos''
''tão bonita, mas tão feroz''
''tão grande, e tão...."
"quando vai aprender os modos..."
'ela sorria, mas queria morder"
"tudo é jovem, vai envelhecer, outras formas..."
"tem o medo, e tem a ousadia"
"'queria menino ou menina?, agora tem os dois" *

vou esperar que um dia, tenha mais luz que sombra
e que não embreew as tentativas,
são todas tão pueris
perto de um trator, rolo compressor da realidade
esmaga
comprime
faz de todos nós,
seres que desejam, o novo, os novos outros antigo( que vcs tmbem queriam)
velhos tempos
fake news, vou conferir
mas entre jornal nacional,
avidez supra real
leitura bocejante e diária whatssapp.

Eu conheci, alguém
mais além
falei com meus avós mortos
 falei com minhas vozes e vós.
 Falei, com o tempo que não viraliza.
Senti, conforme os tempos...
Escutei, com atenção minhas mortes ativas
Todas elas me diziam:
vá dizendo. Aos tropeços.
àos erros, e acertos não reconhecidos
Vá seguindo.
Sem fôlego mesmo
pare rápido, olhe em volta, feito animal
 Continue.
Respire.
Você não é só pele e osso
mas agora é
sangue borbulhante
respiro de primitivo
caminho verdadeiro.


* Conversa  a sombra que há em mim, diz à luz que há em mim.(Continua, no papel´caderno)

agosto 27, 2018

Human Nature

O espírito humano de desbravar
é mais forte que tudo
é a vida pura,
rompendo, brotando
nas condições mais improváveis
no inóspito
no imprevisível.
Rodin - Embraced girls

agosto 24, 2018

O que calo, também é fala ( e falo)


O silêncio tem vários sentidos.
O calar meditativo, e esvaziar-se dos sentidos. Um calar de profundidade da alma, o ouvir-se nítido .
O calar de refletir, processar emoções, sentimentos, situações, eventos internos e externos.
Tipos vários de silêncios.
Há também o silenciar como recusa. Recusar-me a comunicar. A ouvir, e a trocar. Silencio, pois estou imersa(o) em mim mesma(o), e não quero sair de dentro de mim. Recuso-me. E recuso a comunicação como forma de me ver no olhar do outro, de estar no mesmo lugar imaginado/imaginário que é espaço criado dentro do diálogo. E que pra isso, haveria de ter abertura, e querer. A reciprocidade da comunicação.
A fala para alcançar o interior do Outro, não precisa apenas ser dita, falada, mas sim e principalmente a permissão para o Encontro.  Tocar no Entendimento é alcançar o lugar do Encontro.
A fluidez da abertura e da permissão para.

É comum hoje perceber como a recusa, se torna inabilidade social em comunicar-se com outrxs, perdemos ou estamos a perder os ouvidos sociais de escuta sensível, trocar e refletir para e com. Habilidade interpessoal que se interrompe: há quem se exceda também, e o espaço é preenchido por só um dos lados.  Assim se torna monólogo, e não diálogo.  O ímpeto, o incontido. Palavras são voluntariosas na sua vontade de escapar do silêncio ao verbo. Tomar forma, e comunicar.

Há excesso no verbo? Há também.
Mas há igualmente, verdade individual, ou pessoal, de um que não aprisiona o verbo. Daí verbo se torna ação, concretude dos pensamentos. Mas quando não encontra eco ou ressonância no Outro, se esbarra na muralha intransponível do Silêncio.
Mas este Silêncio também, traduz sentido, e comunica algo. É febrilmente alto, enfático, eloquente.    Mas inconcluso.

Há lendas sobre os problemas da comunicação, como a Torre de Babel, em que diversas linguagens distintas existiam para confundir, e desorientar os humanos, no seu propósito de se entenderem.
Na clínica analítica, e na arteterapia, imaginei uma proposta, a de criar uma Caixa de Pandora invertida; ao invés de soltar os males do mundo, se libertaria o espírito das palavras aprisionadas.  Palavras pensamentos sentires, sentimentos; libertos, libertados. Os pensamentos que comumente guardamos pra nós, e perdemos a oportunidade de dizer.  Construir, pintar, simbolizar criativamente a caixa, e em seu interior, como a cabeça que temos, cheia dos pensares-pesarem, criam o lugar, o espaço físico das palavras que antes não foram ditas, do verbo que não saiu na hora, daquilo que perfeitamente era construção mental, mas era também anseio por dizer, e se perdeu no tempo.
Na Caixa, é criada a função de expelir. As coisas que a gente guarda e quer dizer, e as outras que se diz querendo dizer. E ainda as que dizemos, sem querer dizer.
Os pensamentos se materializam.

Existe direito pra delimitar o verbo, ou o silêncio (?):
Não, este é o domínio de Hermès, hermenêutica, e se suas mensagens não chegam, se perdem no caminho do falar-escutar. Falar não necessariamente diz algo, comunica algo... Quantos tem o verbo como verborrágico? E quantos calam um silêncio acintoso, e cruel no entrincheirar-se do vazio?
Qual ordem faz com que seja esse o dito? Ou o calar...?
Que desassossego impermite o tráfego das palavras. Das que jorram, e das que calam? Os interlocutores são peças num imenso mundo simbólico da permissão ou negação, entre frases expressas e as guardadas em si.  


Who needs a signal?  Or a sign. Meia palavra, ou silêncios também dizem e assim é . Texto-devaneio sobre uma não conversa, sobre sintomas e repercussões da clínica em arteterapia, e sobre mim mesma, nos desditos. Palavras que se organizam, se reúnem, e criam o vínculo simbólico.  

julho 25, 2018

Atravessei o sinal
de novo, os olhos fechados
a consciência dos sentidos
deixo ressonar o burburinho surdo dos carros
dos cães, das gentes
fiquei imune. vacinada da surdez
agora ouço profundo e enlevo a música interna
cochicho das crianças
habita em mim
solfejos e augúrios
ora sonhos ora expansivas expectativas
romântica idealista
incurável em si
passo horas na imersão das significâncias
  mais recônditas
analiso os escombros
sem ter tido desastre algum.
Iminente, é o gostar do drama
já que esse é o território humano
e nos afeta.
 Perceba que há, entre as tempestades e os raios no céu
antes,  um silêncio reverente e nobre
a pausa antes do movimento
silêncio que precede o som
a orquestra: cores sons e nuvens
Não é por acaso
que a intensidade dos atos sutis nos acompanha
e nos torna,
matéria barro amálgama
da mesma substância.




junho 24, 2018

Oração

Por cada nó que nessa vida desato
libero atrás minhas três gerações.
Pra cada corrente que rompo,
alguma parte de meu corpo é curada.
Pra cada olhar mais profundo dos fatos,
torna-se a reescrever a favor da libertação.


junho 21, 2018

idades

Meus sentidos voláteis,
agora se tornam estáveis.
quero poesia na estabilidade, sem perder a loucura-doçura
que contém cada sentir...

Um outro estágio.
Nova atmosfera nada de fera nem ferina
só a observar
e a aprendizar.


 

junho 20, 2018

D i s topias

Há poucas semanas, fui assistir Distopias, espetáculo teatral que trata de temas dos dias atuais, no Brasil, no cotidiano. É uma peça política, e como nosso comportamento é político mesmo quando alienado e dito apolítico.

Os tempos passam, os anos se sucedem, mas nos repetimos.  A memória do brasileiro médio é como areia de uma ampulheta viciosa, que não se renova, e não renovando seu pensar, não repensa seu passado.
Muitas vezes acredito que um Estado de exceção é nossa realidade. A arbitrariedade das escolhas que fazemos diariamente são tão repetitivas quando as que escrevi há tempos atrás, noutro texto¹ Espelho para Cegos, do que continuamos cegos. 

Saramago escreveu um livro que podemos dizer surrealista, anárquico ou humanitário, muitos adjetivos cabem pra descrevê-lo; o Ensaio sobre a CegueiraLembrei deste livro, pois os personagens, assim como nós viviam num estado de desumanização dos sentimentos de empatia, de gentileza, de Encontro com o outro. Tal estado de cegueira emocional que nos encontramos, é um estado subalterno e sem ternura do sentir dos-e-com outros. Que na literatura foi preciso cegar o sentido fisiológico da visão, que correspondia à cegueira da alteridade, o sentido maior filosófico que possuímos em contraste e identificação com a humanidade.  A ficção se assemelha à realidade, quando nos vemos sem comida nos supermercados da cidade, quando as farmácias estão sem remédios ( e quem remedia à nossa angústia e cegueira de almas, um deserto interior?), postos abarrotados de gentes e sem combustível: ficamos sem os suprimentos da realidade rotineira, aquela que chamamos de "normal", de normalidade, o correr das horas, o correr dos passos pra se ir ou chegar a algum lugar. Que lugar é esse não sabemos, e nem o que fazer ao chegar senão partir novamente. Então o tempo se torna a corrida e deslocamento de lugares à outros. E à outros... sem nunca saber porque corremos tanto. E sem nunca olharmos quem está ao lado, na jornada, na luta diária por espaço, afeição, alimento de afetos. A mesma paisagem coletiva de afazeres inóspitos.

Seria este um Eterno Retorno, que nos coloca novamente as mesmas questões de que fugimos correndo (?) Se possível, que retorne também a humanidade perdida no caminho.
O espetáculo fala disso, estão todos às pressas, ocupados consigo mesmos, conectados virtualmente com seus aparelhos, celulares - os visíveis, a tecnologia - invisível - que não aproxima, que nos impõe a distancia segura, nos faz surdos, cegos, isolados. Cada um é uma ilha cercada de silêncio hostil ao outro.   Saramago ( como Bauman) escrevem advertidamente da deserção psicológica, à alienação e ao medo. Medo de sentir profundamente, de se envolver com as angústias, de se deixar comover.

Revolução, qualquer uma delas deve ser esse despertar, criativo, inventivo de si, carente do calor das massas, de pessoas e suas urgências afetivas, da permissão de se comover, de promover o Encontro através do contato das semelhanças, das idiossincrasias. Abraçar ideologias no palco, que reagem ao Estado tirano das ditaduras, que ofendem à democracia e direitos humanos: que ampliam o humano que há por trás das máscaras sombrias de verde-amarelo, patos-fantoches da direita conservadora. Fetiches  que anestesiam mentes e corpos do futebol ruim de Copa. Dialogar com isso é apresentar suas potências contra o absurdo dos dias, e não perder a ternura.
Uma fábula da realidade, teatro de Liberdade como diz um de seus personagens, uma alegoria nos dizendo dos tempos sombrios. Demasiada realidade, extremamente necessária.



imagens divulgação

¹talvez os textos se pareçam. (será porque se parecem os tempos, e seus sentidos dessentidos?)

junho 01, 2018

pas de danse


Todavia ela andava
tropeçava no caminho
e levantava
batia as mãos
retomava o caminhar.

Aprendeu a andar descalça,
e saltitando,
(saltimbanco)
Salta aqui, salta acolá
uma dorzinha desviada
uma angústia postergada
e ia assim meio mambembe,
meio circence
transviada







Até que os caminhos partiram-se
em muitos,
e foi nesse caminhar-dança-tango
que soube que ali havia
mais gentes.

Já não estava só
em sua perdida doçura do erro-acerto
caminhou em passos mais lentos
e apreciou a vista.


¹ pintura sangue e evolução menstrual.

abril 28, 2018

Alma. Psykhé

aqui um problema a ser solucionado (talvez).
é o de representar através de

Quero uma superfície infinita.
O papel por mais extenso que seja não cabe em si
e borra. Mas não pra fora e além.
O pincel diz tortuosamente as incertezas
talvez faça sentido assim.
Celulose é atrapalhada.
Tudo tem seus poros não é?
o corpo é uma superfície cheia de imperfeições
mas respira, ao menos.
a tela tem um fim. e nos seus descontínuos transbordos,
só permite que o desejo vá até suas margens.
a bolha de sabão
é tão frágil, morre quase ao nascer.
A teia de aranha faz uma mandala perfeita
nenhum humano faz senão suspirar de vontade.
O tecido escorrega, fura, espeta, não acerta,
parece concreto,
mas é como uma água pegágel só momentaneamente
fere os orgulhos de conseguir.

o barro é frio e macio, poderia ficar horas e horas sem lhe dar forma
com medo de marcar de detalhes e entalhes, da imperfeição o que é já é bonito
sem forma definida.
As ondas sonoras tem sua dança, se propagando como uma configuração feérica
será por aí que encontraria a melhor demonstração?

Quero conseguir atravessar as superfícies, pra alcançar um infinito possível.
Quantas vezes tenho que morrer e renascer na arte, até conseguir deslimitar-me?
Quando haveria o meio de extravasar os planos, as superfícies, as tridimensões,
as funduras e depressões, as curvas e os riscos
labirínticos.
Até onde posso ariscar ir mais longe?   Onde seria esse longe....
Há contornos aparentemente incontornáveis pra alcançar a forma de alma
aquela que é paisagem de sua casa interior.
A que você realmente é. Sem adentrar explicações.

Continuum em investigar

abril 27, 2018

Ansiar, verbo intransitivo ( porém transitável)

Todo dia as coisas mudam de lugar
 a mesa era aqui
 o poema era aquele
 agora é outro
a cadeira que costumava estar presente cá
agora é lá
as paredes não pintei
 porque violeta é a cor
estrutural da alma
mudam os tons somente.
Aqui, apenas as perguntas-devires tem ressonância.

Acostumei e desacostumei
será que os que estão comigo, acompanham a volúpia
e o volúvel que são esses estados
passageiros?   ( pergunto sempre perguntas que não tem respostas fáceis)

hei, esperaí: ...:  era a pergunta que não fiz
olha de novo,
as pistas do universo são deixadas mais de uma vez
pra que não nos percamos
da pergunta?
hei, outra vez; queria saber: ...:  e soube.
hei, outra vez; haverá dia que brilha pra nós amanhã?
hei, outra e sempre: há perdão disposto na alma
que não camufle e nem interceda na sinceridade?


sempre haverão perguntas, e respondidas, outras substituem as primeiras.
e se existe fim pra perguntar, haverá fim pra desejar
:seres desejantes.
porque perguntar, é outro nome pra existência.

abril 24, 2018

ImaginAção

                                                             

"O mundo real é muito menor que o mundo da imaginação"  Nietzsche

Em um dos estudos de Piaget, ele observa o desenvolvimento mental da criança, e o que esta considera real e fantasia. Constata que há um momento em que a criança consegue discernir o que é real, do que é fantasioso.   A realidade observada, da realidade imaginada. Isso diz respeito daquilo que é compartilhado entre todos, e do que é imaginado somente dentro de si mesmo.
Essa é a diferença principal.

Um novo passo, adulto, e da volição pensamento-comportamento, numa outra forma de ver as coisas é quando se faz essa ponte consciente, entre um estado e outro.
A minha realidade particular e imaginada, se torna realidade compartilhada quando planejo mentalmente uma ação, e da minha imaginação, se torna ato concreto.

Do desejo interior de transformar a realidade, eu elaboro, imagino, vejo-me fazendo a ação, até transforma-la em atitude concreta., deliberadamente consciente de sua amplitude.
Percebo então, que o mundo imaginado ( ou imaginário, imagético, fantasioso), não é senão uma das centelhas processuais do pensamento e ação; da imaginação à realização.

( A poesia está aí, imaginação e a tal criatividade, é uma das etapas do processo consciente que "salta" de si; é criação e recriação da realidade.)

abril 17, 2018

Boys on the side *

É uma de declaração de amor ao rock... Das mulheres.  Mulheres no rock tiveram várias fases; do grito ao sussurro, da ferocidade usando todas as cordas vocais, até grunhidos, vozes melancólicas, súplicas melodiosas,  suspiros e gemidos sexies de amor e ódio.   Tudo é tão intenso e voraz, seguindo batidas e acordes voluntariosos, que eu só queria essa entrega total ao volume. 
Vou começar com ícone de minha adolescência, Ms. Courtney Love. Adolescência era sinônimo de rock grunge , e um estilo subestimado hoje, era minha devoção total. Todos olhavam, e ainda olham, como o Kurt era lindo e etc e tal.. e eu só via a esposa odiada. Em verdade, eu amava o som de ambos, Kurt foi um excelente letrista. Ler o que ele escrevia era tão bom quanto ouvir o Nirvana. Mas aqui só falarei delas. Praticamente só ouvia isso por um período. E Courtney era o tipo da mulher nos vocais e na vida, que eu achava incrível, o esplendor da Deusa personificada em cabelos descoloridos, bagunçados, roupa puída, unhas descascando, batom em excesso e borrado. Uma anti-heroína (usava também) que era minha heroína musical.  Por anos foi até minha senha em contas de email!
 (E a versão dela de Hungry like a wolf do DuranDuran é melhor que a original) Desculpem os puristas..

The 80's. São os melhores, e até hoje estão sempre na frente no que ouvir. Nisso, o pós punk britânico é o melhor rock que existe, e acho que estou sendo modesta.. Uma amiga minha Leila, diz que eu danço parecida com ela, Susan Ballion ( pra minha alegria, pois não sei nada de samba pagode e afins, e essa cidade sempre me impõe isso, um saco!). Mas a voz poderosa, e meio profética, os o l h o s tão expressivos e carregados de maquiagem, bem marcado daquela década musicalmente tão rica. É uma época que a realidade lésbica podia também aflorar, por meio dessas vozes e posturas extravagantes. Outras cantoras e bandas com musicalidade do gótico ou próximo de um folk-gothic, chamam de som do etéreo, e ouvindo também percebo ser isso. Afora denominações, essa época costuma me fazer levantar de onde estiver e começar a dançar, seja onde for. E tem uma pegada teatral! Teatro do burlesque.  Ouça Vanishing - e se transporte pra uma noite de lua cheia, floresta com névoa, e criaturas misteriosas à espreita.

Preciso falar do feminismo aqui. Começar a ouvir o Hole e outras bandas com essas cacterísticas, dizem respeito à pessoa que eu queria ser adolescente. Not the girlie of daddy. Nada de roupinhas fofas, comportadas, nada que me fizesse parecer uma garota direita. Gostava e gosto da descompostura.  Ver mulheres no rock,  -terreno sempre muito másculo e machista- me inspirava e o movimento Riot Grrrls, tal como o Pussy Riot com teor político na música e nas performances. Tudo isso representa liberdade. Poder ser de outros modos, escolher como se quer ser, vestir, se relacionar ou comportar-se.














* Boys on the side: é também o nome de um filme sáfico-on-the-road que adoro, 93 ou 94, não lembro agora. Com a Whoopi Goldberg, Drew Barrymore e Mary Louise-Parker.  

março 29, 2018

29.03






















Não foi tão difícil como imaginei.  (!)
 Na verdade foi tão bom aniversariar com amigos, e queridos, por perto deu um calorzinho dentro, fez do corre dos dias, uma pausa bem interessante.
Teve bolo sim, parabéns, teve som de Candice Fiais e Soulshine Blues (!!!) que presente ouvir bluegrass e country original ! 'TEVE' surpresinhas ... Boas, inesperadas. Conheci mais pessoas.

Final da contas, resumo da ópera, nada foi blues, ou melhor,
foi ! e desse modo foi tão, tão bom... Encontro de afetos.  But  It´s just another day






março 13, 2018

Espelho para Cegos. *



"Se quisermos, podemos viver em um mundo de ilusão reconfortante" Noam Chomsky

Os costumes aprisionam. Você pode achar que não. Pode deixar de ler a partir de agora. 
Se continuar é por sua própria conta e risco.
Você percebe que há algo de errado com as pessoas, a maioria delas, quando vê alguém vociferar barbaridades, ofensas, e o outro compreensivo, solícito, sorri de volta. Bovino.

Ou quando alguém pisa no pé sem querer, esbarra, e a resposta é um tiro, uma facada.
Se começa uma frase, uma pergunta simples na rua, e o outro responde antes de terminar, antes mesmo de você começar a dizer, responde em piloto automático respostas que nada tem a ver com a pergunta.
Por um momento se pergunta se estão todos loucos. Mas o louco aqui é você por se perguntar isso. Questionar é proibido. Se não é proibido é mal visto, olhares censuram, você é inibido.
Questionar levará você ao martírio de concluir o adoecimento geral de comunidades inteiras, quiçá a população absoluta.

“Há algo de estranho acontecendo” sua consciência continua a assinalar o alerta.
As pessoas estão cada dia mais parecidas, as opiniões se assemelham, ninguém discorda mais pra não ser ‘do contra’, divergências são perigosas, tudo parece uma harmonia de plástico, sorrisos ensaiados, a submissão um mode on de viver. Mas algumas pessoas são mais iguais que outras.
A apatia, e o marasmo, é a doença social que tem se espalhado e contaminado como epidemia, e é exatamente este o objetivo almejado, o condicionamento de caráter, começa em você, e no outro ao seu lado, paralelamente.
Vamos conjugar juntos o verbo da vez, “eu me alieno, tu se aliena, ele se aliena, nós alienamos você, vós alienais aos outros...” 
Como nos provêm entretenimento – famoso pão e circo – há séculos eficaz para o entorpecimento do raciocínio.
Horas extenuantes de trabalho levam a pessoa a aceitar tudo, chegar exausto, comer (ou engolir), dormir pesado e sem sonhos. Que já é tarde, e amanhã levantar cedo para fazer o mesmo que hoje. E fazer o mesmo que depois de amanhã, e depois de depois, seguidamente.  Portamos-nos como cordeiros de mansidão, domesticados, sem vontade, a não ser a de consumir um pouco mais aquilo de que não precisamos.
Os dias se parecem, as pessoas se parecem. As conversas iguais, parecem monólogos em grupo. 
 E algumas, ainda mais que outras.
 A atitude que prevalece é o da passividade submissa, absurdos passam a ser a realidade habitual. Nos ônibus, as pessoas estão vidradas na TV, e nem olham mais pra fora.
Dentro das casas, a TV, substitui as relações, e no caso, parece muito bem vinda, pois permite as pessoas “conviveram tranquilamente” sem precisar se comunicar.
Já que falar, apenas, não significa necessariamente se comunicar.

Chegou-se a um ponto tal, que ser passivo além de ser a atitude predominante, é também a atitude esperada por todos de você.
O perigo é se você resolve abrir a boca, o verbo, e desafiar o consenso, perguntando algo imprevisível e ameaçador, como o planejamento do governo para os gastos públicos neste ano. Ou como estão frágeis as relações, se deteriorando...
Ou o supremo ato anarquista de imprevisibilidade: como foi que as pessoas pararam de reagir, a perder sua humanidade para robôs adestrados?   
Não é a Traição da Harmonia, e Paz Social ?
Há algo de estranhamente doentio, quando as pessoas pedem voluntariamente para fazer sua lavagem cerebral.  Rotineiro e insidioso costume.
Imperiosamente lavamos nossas almas, nossas mentes, nossos duros e frios corações, e por fim lavamos as mãos tal qual Pôncio Pilatos, nos livrando do peso da responsabilidade individual, e destituindo a razão de ser e agir.  Em cada lavagem cerebral, que fazemos diariamente, há a sombra de Pilatos, sorrindo satisfeito, a anulação da vontade pessoal.

Outro dia vi um homem conversando com uma estátua. Sim, uma estátua de monumento, e ao seu lado ele falava animadamente, talvez sobre esportes, futebol.. Algum ópio comum, difícil de largar.  Parava e parecia ouvir respostas. Estranhezas cotidianas.
Noutro dia, um velho com roupas maltrapilhas, dividia sua única refeição com um cachorro.  Dividia metade de cada pedaço pra cada, em partes iguais. Acho que dormiam juntos também, comiam juntos, e vagavam juntos por outros abrigos, quando por alguma razão este já não servia mais. Tratava-o bem, pensei. Talvez um cão seja mais próximo de nossa desumanidade que um humano, parece ser. (E só porque ele não nos julga como fazemos).

Percebo que há superpopulação nas mesmas condições. As ruas estão apinhadas. Os condomínios vazios e entrincheirados de grades. A jaula em que nos metemos, sorrindo e achando que somos livres e seguros.
As pessoas andam com pressa, as expressões tensas. Desconfiança sempre. O outro é o inimigo. O medo é nossa companhia constante.  Não nos abandona nem quando vamos dormir. Ah, mas o sono é pesado, é cansado, já não sonhamos mais. Nem deitados, nem despertos. É mais um estado de hibernação resignada, compartilhada. E só conseguimos suportar, pensando que a desgraça alheia é ainda pior., o vizinho deve estar tão cansado quanto eu mesmo, ou talvez mais. Infortúnios coletivos embalam o sono.

Já tentou abrir uma gaiola de pássaro em cativeiro? O pássaro não vai voar. Não adianta tentar, é garantido. Talvez nem saiba, ou se lembre como fazer isso. Há gerações inteiras que nascem em gaiolas; de vidro, de metal nobre, de latão enferrujado e gasto, e em tão sofisticadas embalagens de gaiolas, que em cativeiro social nunca souberam o que é o ar livre, ou voar... Algo tão distante que muitos dizem ser delírio dos antigos. Como se assim fosse o natural - invertido. Antinatural assimilado. Nossa caverna de Platão que tanto adoramos e a defendemos, com argumentos tortos, ou sangue, se for preciso.

O Estado de Sítio já se instalou, mas letárgicos e retardados que somos, achamos que é um estado democrático. Sim, democraticamente apático. Máxima piada triste e sem graça que rimos constrangidos.
Com as lavagens cerebrais diárias, o esvaziamento interno é absoluto, assim como todo o conteúdo escorre pelo ralo e esgoto. O divertimento fútil que consumimos e somos consumidos.
Se por acaso, alguém pergunta demais, ou pior, acontece de questionar uma regra, nega uma obediência, dissimula uma ação inesperada, é certo que haverá represália.

O mais comum é que já tenhamos embutida a autocensura. Então no momento exato em que pensamos agir diferente; nossa censura, nos paralisa: a voz coletiva já foi internalizada e funciona com eficiência impecável. A máquina repressora de nossa consciência já capenga.
Chegamos a uma época histórica a que vivemos hoje, época em que não é preciso nenhum regime político totalitário, em que as forças armadas militares não precisam ser acionadas, nem as ordens precisam ser impostas pelos meios de comunicação dos partidos políticos. As regras são sutis, mas incisivas. A falsa democracia é abraçada e defendida pela população. Os dissidentes, os contrários, desviantes são ignorados, minimizados, e desqualificados por todos.
A ditadura interna é a vigília e defesa para a banalidade em que todos aceitam, em uníssono. Um coro igual e assustador está ecoando entre as portas, janelas, ultrapassando as diferenças, e reduzindo-nos `a fantoches idiotamente felizes.


fevereiro 18, 2018

sweet then wine

Um sorriso meio de lado
felinamente
que esgueiro...

carros se chocam
pessoas se reencontram
é a mesma sensação
um vulto estranho, um reencontro
constrangimento( o que significa?)
atrito de sensações, olhar vesgo
momento de lampejo
beleza, entreolhar, reconhecer, um momento de saber.
depois volta, e... outra coisa segue-se
sabemos
sinfonia, orquestra de tumultos
gritos internos nos dizem
outras coisas menos nobres verdades, que camuflam
mas há verdade
"sou esperto o bastante, saberia! saberei."
Do contrário o que teríamos, momentos vagos
indizíveis, indecifráveis
Era eu, era você, Eramos nós
Bad luck?
Whatever...
Outrosim, éramos instantes querendo
porque o querer não perdurará
no seu querer.

Continuamos querendo
encontros haverão'
Há de haver, encontros sem "trombadas"


( Isso pede Lou-Bowie, padroeiro dos caminhantes desencontrados, reencontrados)



fevereiro 02, 2018

Sinergia e sincronicidade, a natureza fractal




“Não posso provar a você que Deus existe, mas meu trabalho provou empiricamente 
que o "padrão de Deus" existe em cada homem,
e que esse padrão (pattern) é a maior energia
transformadora de que a vida é capaz de dispor ao indivíduo.
 Encontre esse padrão em você mesmo e a vida será transformada"


Jung e a Sincronicidade
"Nós, seres humanos - ensina ele - temos um papel especial a desempenhar no universo.
O nosso inconsciente é capaz de refletir o Cosmos e de introduzi-lo no espelho da consciência. Cada pessoa pode testemunhar o Criador e as obras Criativas desde dentro, prestando atenção à imagem e à sincronicidade. Pois o árquétipo não é só o modelo da psique, mas também reflete a real estrutura básica do universo. "Como em cima, assim em baixo" falou o mestre Hermes Trimegisto. 
"Como dentro, assim fora" responde o moderno explorador da alma, Carl Gustav Jung. 

(Extraído e adaptado do livro Jung, o mapa da alma, de Murray Stein. 

fevereiro 01, 2018

3.8.

...chega os 38. e chega também outras urgências.    A velha-eu está aqui bem firme e forte dizendo pra continuar sendo a velha-eu.  A nova-eu é um raminho verde brotando, não tão frágil e nem tão forte.
Apenas inseguramente existindo. 
Meio cansada de consolar as dores de alma. Meio sem saco pro aniversário da cidade que calhou de ser meu dia também. Sem nada pra tolerar também esses festejos, todos iguais, como sempre, essa cidade que tenho sentimentos ambíguos: pertencimento-nunca pertenci.
Luta e lutando diariamente pra não me entregar à melancolia, bem real que ronda. Força, viço de viver, fenecer e me entregar exaurida, exausta, melhor parar.
O desejo de Amor, de ser comunicativa, de transformar por práticas igualitárias me impelindo simultaneamente a rugir minhas urgências. Tanta demanda. Tantas ações e esperas, vontade de não ser sozinha nos desejos, vontade de ser compreendida, e "não serás tão alienígena" nos teus sentires-devires poéticos.
A verdade é que vencer esse bicho-mulher, e esse monstro que tenho em mim, tão múltipla, plural, e feroz; e não há flores suficientes nesse mundo pra cobrir o cheiro fétido, tanto quanto o perfume discreto.  Qualquer um, não tem, ou teria coragem pra atravessar os espinhos, até finalmente chegar na flor.
A flor se retroalimenta, somente dos desejos. o sentir por si mesma.
 Saudades agora de Clarice, Deusa suprema e maior, que quebrou o átomo da palavra e inventou outras inexistentes, como pintura pra ser lida, neologismos em que eu me acolheria, com prazer sim.

Amanhã vou ler isso, e sentir que, novamente exagerei.  Mas dane-se, maquiar tanta demanda ² tempo e sem saco e vontade pra enfeites.   Amanhã, vejo.

Aterrisar, e atravessar.... Inferninho astral pré data de aniversário, mas que vale a pena guardar.
(Loucura que cura).

janeiro 31, 2018

PLC


Ano passado entre vários tarefas, tumultos internos e externos, estudos, clínica, formação, etc. Me aventurei num curso de extensão da Ufba. Estudo do pensamento de várias mulheres, na perspectiva do lesbo-feminismo. Muitas outras companheiras que se entusiasmaram com esse tema, daqui de Salvador,  de outros Estados e cidades, se encontraram na plataforma virtual moodle da Ufba.
Lá tínhamos os fóruns de discussão das pensadoras, biblioteca compartilhada, livros e lançamento de eventos ( sim tivemos uma jornada presencial no PAF 1, da Ufba), e principalmente o envolvimento com faces do feminismo construído no séc XX e XXI. 

Imersão em e sobre afetos, performances, feminilidade, construtos sociais, teorias lésbicas, violências, feminismos, interseccionalidade, artes, educação, deficiência, capacitismo...

Pensamos a partir das autoras Miriam Pilar Grossi, Adrienne Rich, Jasbir Puar, Judith Butler, Audre Lorde, MH/Sam Bourcier, Gloria Anzaldúa...
As trocas eram entre nós em cada grupo, safo, labrys, velcro, lesbos, e outros nomes sugestivos, onde rolavam os debates. Construção final num artigo científico ou vídeo performance como TCC. 
Escrevi sobre Mães hétero e Filhas lésbicas, questões e tensões de família, gênero e orientação sexual. 
Assim que possível e autorizado, disponibilizo cá.

Não vou conseguir transmitir por aqui, os significados vários, amplos imensos desse mergulho sáfico. rs. Mas que foi uma jornada deliciosa foi sim.




Pra quem achava que parei com minhas militâncias.... Elas só foram se afunilando de uma espiral maior pra desejos mais diretivos.

janeiro 29, 2018

da dúvida e outros confettis

Análise do medo
da sexualidade orgulhosa
no planalto: crucifixos
na boca do povo: lascívia de samba-enredo
esbórnia ideológica
carnaval na tríade samba-suor-cerveja
produção de devires
do desejo.
Assim até eu gosto.
febril e felizmente

amor e outros confettis
só depois da quarta de cinzas
fragmentos
se houverem.



Análise de crise(s)

Difícil é Ser
em Estado teocrático
manipulação legitimada
a farsa teatralizada, e
televisionada.
Globeleza nos corpos, e nos pensamentos comuns
banalidade do órdinário
mais vale uma bunda que rebola, que
pensamento em movimento; ação que concretiza.
Crise do eu, do sou e do somos
equação da depressão política.
Manifestação do ridículo emplumado, envernizado,
e amestrados, os títeres repetem;
mentiras óbvias, relinchos cuspidos, becos sem saída.

vociferar nas ruas,
ou repetir o scrip neoliberal
eis a questão.
Haverá amanhã, pra nascer feliz?

de nossos corpos dóceis
de cabeças embotadas,
esvaziadas.
rebolations, simulacro cultural
fedor que se espalha.
Nós somos paródias
nas manchetes do outmundo
risíveis.

Análise das desrazões
no Brazil faz de contas
pois a crise pode ser cega
da razão
mas nos pega no bolso,
e no sentimento ambíguo;
"Tô fazendo merda, mas..."
é que crise não é só política,
é também cognitiva e emocionada.
E nesses tempos, emblemática
dos vícios
e padrões
que não dá mais pra descer.



janeiro 17, 2018

Tenho me servido
frequentemente, de verdades bêbadas.
antigamente, quando eu era outro eu;
mais antiga, displicente e talvez aberta
as verdades jorravam, afoitas por dizer, por expressar
por subirem à tona
muito longe de ser superficial
 e nem ao menos pensava no medo,
intuia: escrevia.
Alguém me disse que a simplicidade
era o mais alto grau de sofisticação.
Nunca duvidei.






ruído rápido

Continuo aqui, mas mais presente nos meus cadernos
PORÉM..
há brincante por toda parte,
angustiante nada, cansada um pouco
mas nada que interfira:
um mais outro é poesia
mais/menos é poesia
trocados por outros trocados,
e trocos de outros pormenores
continuam grandes e maiúsculas,
 porradinhas urbanas
que nem são, ou foram pequenas.

Ontem escutei alguém falando de quem eu era
parecia alguém tão conhecido,
quase reconheci,
será meu destino
me parecer comigo: (?)
E à menor dúvida, retornar aos hábitos horrorosos
 { haverá pistas, atalhos, sabedoria? }

Retomando, de modo caymmi,
que é o meu modo
ao blog

umas vontades aletórias e urgentes de cuspir, arder,
não fazer sentido,
barulhar
marulhar
cócegas
e desvios aos desvãos.



vem vão e virão...

 ariscas, urgentes. Cadernos e mais caderninhos sendo escritos.
Nem tanto aqui, mas a escrita sempre em contínua impermanência.
Não deixo de dizer o que digo, só não tem sido público..rs

Mad World (e 80's)




Digam o que quiserem, mas os anos 80' são os melhores de todos os tempos.
(Nem nunca vi pessoas mais loucas) Ou mais gays.











tente não (só) ver, mas ouvir.   e se transportar por mundo de ombreiras, batom lilás, jaqueta, cabelo armado, brega chic, tecladinhos sonoros deliciosos...

janeiro 05, 2018

Bela Lugosi's Dead

Essa talvez seja a melhor tradução dos meus sentires. "Quem achar que me conhece..." não me conhece de verdade até ouvir essa música. E mesmo o Bauhaus sendo a banda que é, com tantas que gosto, nenhuma tem mais a ver comigo, com todas essas reticências enevoadas que esta. Essa música; e este filme adicionado à música, são obra prima de arte. Mais, mas eu não sei elogiar mais ou como do que já fiz.
Algumas coisas nunca mudam. Ainda bem.


Nem nada tão sensualmente romântico.  Nenhum adjetivo é pouco aqui.