O
Anarquismo Verde ou
eco-anarquismo ou, ainda,
ecologia libertária é uma corrente anarquista
nascida nos anos 1970, no bojo do movimento antinuclear. Além de se opor à autoridade e à hierarquia, critica a tecnologia, como forma de dominação da natureza pelo homem.
Propõe a auto-organização, a autogestão das coletividades, o mutualismo e, além disso, segundo os anarquistas verdes, o movimento libertário, para evoluir, deve rejeitar o antropocentrismo e realizar uma mudança radical nas relações entre homem e natureza.
O eco-anarquismo baseia-se nos trabalhos teóricos do geógrafo Élisée Reclus e do teórico anarquista pacifista Piotr Kropotkin e é próximo da ecologia social, elaborada pelo americano Murray Bookchin.
Perspectiva histórica
Vários textos anarco-primitivistas,
inseridos numa perspectiva de pensamento eco-anarquista, começam por
apresentar o argumento histórico, segundo o qual o homem é naturalmente
anarquista dada a sua evolução, o que permite compreender o mundo primitivo como correspondendo a uma economia verdadeiramente sustentável, em que o homem vive em equilíbrio com o seu ecossistema. Nos presumidos 10.000 anos de civilização, há uma progressiva alienação, numa economia baseada na exploração ilimitada da natureza.
Os anarco-primitivistas não defendem verdadeiramente um retorno ao
passado. Esse olhar para o mundo primitivo visa muito mais repensar os
modos de existência, e o lugar do homem na natureza do que recriar um
mundo passado. Procura-se, assim, apontar os aspectos patológicos da civilização e suas consequências para mostrar a necessidade de reconectar o homem com a natureza, da qual é parte.
Conceito do "bom selvagem"
Um tema algo controverso relacionado com o eco-anarquismo diz respeito à ideia do "bom selvagem". Este surgiu em meados do século XVIII em vários autores, sobretudo Rousseau.
O debate atravessa o mundo acadêmico em discussões de diversas
disciplinas, com implicações das mais diversas ordens. Alguns daqueles
que criticam o eco-anarquismo se utilizam desse conceito para atacá-lo.
Os autores eco-anarquistas rebatem a crítica, fazendo referência a
relatos de antropólogos contemporâneos, acerca de culturas que ainda não
foram absorvidas pela sociedade industrial.
Tais relatos apresentam o "selvagem", como basicamente pacífico, e o
mundo primitivo caracteriza-se por esse modo de vida pacífico. Ted Kaczynski
procura explicar, no seu manifesto, as várias fontes de
disfuncionalidades das sociedades modernas e como as sociedades
primitivas apresentavam-se mais saudáveis. Por outro lado, John Zerzan
procura distinguir entre sociedades puramente selvagens e aquelas que,
por praticarem a agricultura, tinham já presente algum modo de
domesticação. Na entrevista de Derrick Jensen a John Zerzan, "Enemy of
the State", pode ler-se a seguinte passagem:
"Tendo em conta que a nossa cultura inventou o napalm e as armas nucleares,
eu não estou certo se estamos em posição de julgar a violência de
pequena escala de outras culturas. Mas é importante notar que nenhum dos
grupos canibais ou caçadores de cabeças eram verdadeiros caçadores-coletores.
Hoje é geralmente aceito que a agricultura quase sempre conduz a um
aumento do trabalho, um decréscimo na partilha, aumento da violência e
mais baixa expectativa de vida. Isto não quer dizer que todas as
sociedades agrícolas sejam violentas, mas antes que a violência não é
largamente uma característica de verdadeiros caçadores-coletores."
O caso "Unabomber"
Um dos textos que mais impacto midiático, originou em torno desta corrente, foi o de Theodore Kaczynski, o manifesto do Unabomber,
denominado "Industrial society and Its Future", onde o autor defende
que a liberdade humana está ameaçada pelo desenvolvimento da sociedade
industrial. O Unabomber ficou conhecido por ter cometido vários
atentados a bomba através do correio contra aqueles que ele percebia
como sendo os "arquitetos da nova ordem mundial".
Ainda que as suas ações sejam totalmente ou parcialmente condenadas
por alguns anarquistas, Ted Kaczynski é em grande medida apoiado como um
"prisioneiro político" no meio anarquista insurrecionário verde, e o
seu manifesto tem um enorme relevo na corrente política eco-anarquista.
Nele podemos ler a seguinte passagem:
Se for permitido às máquinas tomar suas próprias decisões, nós não
podemos fazer qualquer conjectura quanto aos resultados, porque é
impossível adivinhar como tais máquinas poderão se comportar. Apenas
assinalamos que o destino da raça humana estaria à mercê das máquinas.
Pode ser argumentado que a raça humana nunca seria tola o suficiente
para passar todo o poder para as máquinas. Mas nós não estamos nem a
sugerir, que a raça humana voluntariamente abdicaria do poder para as
máquinas, nem que as máquinas obteriam o poder por vontade. O que nós
sugerimos é que a raça humana pode facilmente permitir-se a deslizar
para uma posição de dependência tal das máquinas que não teria escolha
viável senão a de aceitar todas as decisões das máquinas. Enquanto a
sociedade e os problemas que enfrenta se tornam mais e mais complexos e
as máquinas se tornam mais e mais inteligentes, as pessoas deixam que as
máquinas tomem mais decisões por elas, simplesmente porque decisões
feitas por máquinas trazem melhores resultados do que as feitas por
homens. Eventualmente um estágio poderá ser atingido no qual as decisões
necessárias para manter o sistema em funcionamento serão tão complexas
que os seres humanos serão incapazes de as tomar inteligivelmente. Nesse
estágio, as máquinas estarão em controlo efetivo. As pessoas não
poderão desligar as máquinas, porque elas estarão tão dependentes destas
que desligá-las traduzir-se-ia em suicídio.
Por outro lado, é possível que o controle humano sobre as máquinas
seja retido. Nesse caso o homem médio poderá ter controle sobre certas
máquinas privadas dele, tal como o seu carro e o seu computador pessoal,
mas o controle sobre o amplo sistema de máquinas estará nas mãos de uma
pequena elite. – tal como está hoje, mas com duas diferenças. Devido a
técnicas aperfeiçoadas a elite terá maior controle sobre as massas; e
visto que o trabalho humano não será necessário, as massas serão
supérfluas, um inútil fardo para o sistema.[...] Eles certificar-se-ão
que as necessidades físicas de todas as pessoas são satisfeitas, que
todas as crianças são criadas sob condições psicologicamente higiênicas,
que todas as pessoas têm um hobby recompensador que os mantenha
ocupados, e que todas as pessoas que poderão se tornar insatisfeitas
sejam sujeitas a “tratamento” para curar o seu “problema”. Claro que, a
vida será tão vazia de sentido que as pessoas terão de ser
biologicamente ou psicologicamente engendradas [...] Estes seres humanos
artificialmente projetados poderão ser felizes nesta sociedade, mas
eles certamente não serão livres. Eles serão reduzidos ao status de
animais domésticos."
Alguns sinais do argumento do Unabomber na cultura popular
Desde os primórdios da construção da máquina industrial, que tem
havido homens que se opuseram a ela, seja esta por uma tomada de posição
consciente que marcou as ideias dos homens, seja por ação direta
contra os seus elementos materiais, ou seja através do produto da nossa
cultura expressa na arte.
Desde o início do último século que vários livros de ficção procuram
explorar a força das novas tecnologias, trazidas pela industrialização, e
de como estas se tornaram o guião para absoluta alienação e o esvaziar
da liberdade humana. De entre os livros que descrevem distopias
industriais contam-se os clássicos literários "Admirável Mundo Novo" e "1984", entre outros.
No cinema também têm surgido muitas manifestações de desalento pelo
modo de vida da sociedade industrial e de como esta nos conduz a um
abismo marcado pelo controlo da vida na depedência da tecnologia. Os
filmes "Fight Club", "Matrix", "V for Vendetta"," Metrópolis", "Blade Runner", "THX 1138", "1984" e "Brazil, o filme" são exemplos.
Entre vários autores e acadêmicos conhecidos que exploram estes temas podemos encontrar, Jacques Ellul, Neil Postman, Herbert Marcuse, Lewis Mumford, John Zerzan e Derrick Jensen.
Relação com outras correntes e ideias:
Ecologia social
Ecologia social um conceito criado pelo geógrafo anarquista Elisée Reclus em fins do século XIX e reapropriado pelo filósofo Murray Bookchin nos anos de 1960.
Sustenta a idéia que os problemas ecológicos
atuais estão arraigados e profundamente assentados em problemas
sociais, particularmente no domínio dos sistemas políticos e sociais
hierarquizados. Estes resultaram de uma aceitação não-crítica de uma
filosofia hipercompetitiva do crescer ou morrer. Sugere também que não é
possível fazer frente a tais problemas através de ações individuais
como o consumismo ético,
mas precisa estar relacionado a formas de pensamento éticos mais
profundas e atividades coletivas fundamentadas em ideais democráticos
radicais (libertários).
A complexidade das relações entre pessoas e a natureza é enfatizada,
junto com a importância de se estabelecer estruturas sociais que possam
levar em conta tais relações.
Anarcoprimitivismo
O anarcoprimitivismo
não é propriamente uma outra vertente, independente em relação ao
eco-anarquismo. É importante notar, porém, que este termo também não
representa um sinônimo. Se por um lado, todos os anarco-primitivistas
são eco-anarquistas, nem todos os eco-anarquistas são
anarco-primitivistas, ainda que esta, seja, talvez, a vertente mais
representante desta corrente.
Tendo identificado o industrialismo como expressão da injustiça
social que decorre da divisão do trabalho e da repressão hierarquizada
que daí advém para manter o sistema em funcionamento, comum a qualquer
anarquista verde, o desenvolvimento da análise dos seus fundamentos,
divide, como seria de esperar, os diferentes autores. Assim, o
anarcoprimitivismo, pode ser identificado, acima de tudo, pela sua
crítica à cultura simbólica, que poderá não ser partilhada, a diferentes
níveis, por todos os eco-anarquistas.
Regularmente é apontado como exemplo, Kaczynski como sendo um autor
meramente critico da sociedade industrial, não correspondendo
exatamente à mesma linha de John Zerzan, um anarco-primitivista. Esta
critica é, por vezes, algo exagerada, já que não nos podemos esquecer
que, em todo o caso, também o Unabomber, no seu manifesto, nos aponta
para a vida selvagem como alternativa ao modo de vida da sociedade
tecno-industrial. Ainda assim, este poderá representar um bom ponto de
discussão nesta matéria. O ponto que realmente divide estes autores, e
que pode ser uma boa base para a compreensão da extensão e
aprofundamento do anarcoprimitivismo em relaçao ao anarquismo verde de
um modo geral, é explorado no texto do colectivo Green Anarchy "Place
the Blame Where It Belongs", que surgiu como resposta crítica ao texto
de Kaczynski, "Hit Where Hit hurts". Nele podemos ler:
[...]Racismo, sexismo, homofobia e pobreza não são "questões
não-essenciais" para nós, como parecem ser para Ted; heterossexualidade
compulsória, conformidade sexual socialmente imposta, racismo,
misoginia, e divisão de classes são tudo produtos de uma estrutura de
poder hierárquica, patriarcal, e nenhum destes problemas poderá alguma
vez ser resolvido dentro do contexto da civilização. Não é a
"tecnologia, acima de tudo, que é responsável pela corrente condição do
mundo", como o Ted alega - é a civilização/patriarquia - e se nós
queremos desmantelar a megamáquina tecnológica que está agora a devorar a
nossa biosfera, então nós precisamos de compreender como a megamáquina
surgiu, o que conduziu à sua criação, e de como serve os interesses dos
governantes da civilização.
[...] Nós sentimo-nos compelidos a dizer que a análise do Ted da
patriaquia e civilização é seriamente faltosa. [...] Simplesmente e
somente removendo a tecnologia como a resposta total libertária é uma
limitada aproximação mecanicista. Nós enfrentamos uma totalidade de
dominação que oprime toda a vida e nós precisamos de tentar ver a grande
figura. Para a transformação antiautoritária, muitas lutas são
necessárias e precisam de ser respeitadas, acompanhadas com uma
consciência da subjacente conectividade.
Anarquismo Clássico
Os eco-anarquistas procuram apontar para a necessidade de compreender
para lá da visão, que eles consideram superficial, de analisar as
questões meramente em termos de poder político na tradição clássica do
anarquismo, e defender aquilo que eles consideram ser a visão mais
global do domínio da vida a todos os níveis, que a natureza do homem
hoje enfrenta. Daí a necessidade da defesa do homem no ecossistema,
passando sempre pela consideração da sua sustentabilidade no mundo
natural e a reclamação do mundo selvagem.
Ambientalismo
O eco-anarquismo
não é, simplesmente, anarquismo com preocupações
ecológicas. Desde sempre que em toda a tradição anarquista houve, de
alguma forma, uma crítica em defesa do ambiente. É a ideia de que a luta
contra a exploração capitalista nos atinge nos mais diversos modos, e
que as pessoas ao não se organizarem em beneficio próprio, enfrentam a
degradação, e o ambiente é uma dimensão desse assalto, que existe apenas
para o beneficio materialista de alguns.
O anarquismo verde vai um pouco mais longe do que isto, e considera
esta análise, em relação ao ambiente, tão mecanicista como a análise do
poder político por parte dos anarcossindicalistas. O anarquismo verde,
mais do que defender um mundo aparentemente mais "verde", ou certas
expressões superficiais de uma natureza intacta, defende uma integração
absoluta e necessária no ecossistema, abandonando por completo os
valores de comodidades liberais da sociedade autoritária.
Pacifismo
Certos sectores anarquistas defendem que o pacifismo é uma expressão
natural desta doutrina visto que a violência acarreta uma resposta ainda
mais repressiva do sistema. Para os eco-anarquistas, o problema é que
as condições para um aumento de controle e uma resposta natural das
pessoas, independentemente de serem anarquistas ou não, já estão
criadas. Assim passamos de sucessivos níveis de controle que uma vez
atingidos muito dificilmente podem retroceder. Kaczynski, no seu
manifesto, descreve numa passagem, entre várias, um retrato que dá conta
desta realidade:
Imagine uma sociedade que sujeita as pessoas a condições que as
torna terrivelmente infelizes, depois dá-lhes drogas para lhes tirar a
sua infelicidade. Ficção científica? Já está a acontecer em alguma
extensão na nossa sociedade. É bem conhecido que o nível de depressão
clinica tem estado a aumentar em recentes décadas. Nós acreditamos que
isto se deve à perturbação do processo de poder [...] Mas mesmo que nós
estejamos errados, o progressivo aumento do nivel de depressao
certamente resulta de ALGUMA condição que existe na sociedade de hoje.
Em vez de remover as condições que tornam as pessoas deprimidas, a
sociedade moderna dá-lhes drogas antidepressivas. Em efeito, os
antidepressivos são um modo de modificação do estado interno do
indivíduo de forma a que lhe permite tolerar condições sociais que em
outro caso ele acharia intolerável. (Sim, nós sabemos que a depressão é
muitas vezes de origem genética, psíquica. Nós estamos a referirmo-nos
aqui aqueles casos em relação aos quais o ambiente tem o papel
predominante.)
Bibliografia
-
Against His-Story, Against Leviathan, de Fredy Perlman
-
Stone Age Economics, de Marsall Sahlins
-
Against the Future, de Kirkpatrick Sale
-
Future Primitive, de John Zerzan
-
The Technological Society, de Jacques Ellul
-
Industrial Society and Its Future, de Theodore Kaczynski
-
Technics and Human Development: The Myth Of The Machine, de Lewis Mumford
-
Technics and Civilization, de Lewis Mumford
-
My Name is Chellis, and I'm in Recovery From Western Civilization', de Chellis Glendinning
-
A Language Older Than Words, de Derrick Jensen
Alguns Autores
- Henry David Thoreau
- Fredy Perlman
- Murray Bookchin
- John Zerzan
- Ted Kaczynski
- Kevin Tucker
- Derrick Jensen
- Feral Faun
- John Moore
Referências
-
Anarchisme et Écologie : le vert et le noir, L'En Dehors, 21 de dezembro de 2004.
-
Anarchisme vert et anarchisme classique, L'En Dehors, 21 de novembro de 2004.
-
Quelle est la couleur de l'écologie politique ?, Le Banquet, 1999. Por Robert Redeker.
-
Noël Nel, Pour un nouveau socialisme. L'Harmattan, 2010, ISBN 978-2-296-13282-5, p. 277.
Ver também
- Anarcoprimitivismo
- Eco-sabotagem
- Freeganismo
- Luddismo