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junho 24, 2018

Oração

Por cada nó que nessa vida desato
libero atrás minhas três gerações.
Pra cada corrente que rompo,
alguma parte de meu corpo é curada.
Pra cada olhar mais profundo dos fatos,
torna-se a reescrever a favor da libertação.


junho 21, 2018

idades

Meus sentidos voláteis,
agora se tornam estáveis.
quero poesia na estabilidade, sem perder a loucura-doçura
que contém cada sentir...

Um outro estágio.
Nova atmosfera nada de fera nem ferina
só a observar
e a aprendizar.


 

junho 20, 2018

D i s topias

Há poucas semanas, fui assistir Distopias, espetáculo teatral que trata de temas dos dias atuais, no Brasil, no cotidiano. É uma peça política, e como nosso comportamento é político mesmo quando alienado e dito apolítico.

Os tempos passam, os anos se sucedem, mas nos repetimos.  A memória do brasileiro médio é como areia de uma ampulheta viciosa, que não se renova, e não renovando seu pensar, não repensa seu passado.
Muitas vezes acredito que um Estado de exceção é nossa realidade. A arbitrariedade das escolhas que fazemos diariamente são tão repetitivas quando as que escrevi há tempos atrás, noutro texto¹ Espelho para Cegos, do que continuamos cegos. 

Saramago escreveu um livro que podemos dizer surrealista, anárquico ou humanitário, muitos adjetivos cabem pra descrevê-lo; o Ensaio sobre a CegueiraLembrei deste livro, pois os personagens, assim como nós viviam num estado de desumanização dos sentimentos de empatia, de gentileza, de Encontro com o outro. Tal estado de cegueira emocional que nos encontramos, é um estado subalterno e sem ternura do sentir dos-e-com outros. Que na literatura foi preciso cegar o sentido fisiológico da visão, que correspondia à cegueira da alteridade, o sentido maior filosófico que possuímos em contraste e identificação com a humanidade.  A ficção se assemelha à realidade, quando nos vemos sem comida nos supermercados da cidade, quando as farmácias estão sem remédios ( e quem remedia à nossa angústia e cegueira de almas, um deserto interior?), postos abarrotados de gentes e sem combustível: ficamos sem os suprimentos da realidade rotineira, aquela que chamamos de "normal", de normalidade, o correr das horas, o correr dos passos pra se ir ou chegar a algum lugar. Que lugar é esse não sabemos, e nem o que fazer ao chegar senão partir novamente. Então o tempo se torna a corrida e deslocamento de lugares à outros. E à outros... sem nunca saber porque corremos tanto. E sem nunca olharmos quem está ao lado, na jornada, na luta diária por espaço, afeição, alimento de afetos. A mesma paisagem coletiva de afazeres inóspitos.

Seria este um Eterno Retorno, que nos coloca novamente as mesmas questões de que fugimos correndo (?) Se possível, que retorne também a humanidade perdida no caminho.
O espetáculo fala disso, estão todos às pressas, ocupados consigo mesmos, conectados virtualmente com seus aparelhos, celulares - os visíveis, a tecnologia - invisível - que não aproxima, que nos impõe a distancia segura, nos faz surdos, cegos, isolados. Cada um é uma ilha cercada de silêncio hostil ao outro.   Saramago ( como Bauman) escrevem advertidamente da deserção psicológica, à alienação e ao medo. Medo de sentir profundamente, de se envolver com as angústias, de se deixar comover.

Revolução, qualquer uma delas deve ser esse despertar, criativo, inventivo de si, carente do calor das massas, de pessoas e suas urgências afetivas, da permissão de se comover, de promover o Encontro através do contato das semelhanças, das idiossincrasias. Abraçar ideologias no palco, que reagem ao Estado tirano das ditaduras, que ofendem à democracia e direitos humanos: que ampliam o humano que há por trás das máscaras sombrias de verde-amarelo, patos-fantoches da direita conservadora. Fetiches  que anestesiam mentes e corpos do futebol ruim de Copa. Dialogar com isso é apresentar suas potências contra o absurdo dos dias, e não perder a ternura.
Uma fábula da realidade, teatro de Liberdade como diz um de seus personagens, uma alegoria nos dizendo dos tempos sombrios. Demasiada realidade, extremamente necessária.



imagens divulgação

¹talvez os textos se pareçam. (será porque se parecem os tempos, e seus sentidos dessentidos?)

junho 01, 2018

pas de danse


Todavia ela andava
tropeçava no caminho
e levantava
batia as mãos
retomava o caminhar.

Aprendeu a andar descalça,
e saltitando,
(saltimbanco)
Salta aqui, salta acolá
uma dorzinha desviada
uma angústia postergada
e ia assim meio mambembe,
meio circence
transviada







Até que os caminhos partiram-se
em muitos,
e foi nesse caminhar-dança-tango
que soube que ali havia
mais gentes.

Já não estava só
em sua perdida doçura do erro-acerto
caminhou em passos mais lentos
e apreciou a vista.


¹ pintura sangue e evolução menstrual.