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abril 28, 2018

Alma. Psykhé

aqui um problema a ser solucionado (talvez).
é o de representar através de

Quero uma superfície infinita.
O papel por mais extenso que seja não cabe em si
e borra. Mas não pra fora e além.
O pincel diz tortuosamente as incertezas
talvez faça sentido assim.
Celulose é atrapalhada.
Tudo tem seus poros não é?
o corpo é uma superfície cheia de imperfeições
mas respira, ao menos.
a tela tem um fim. e nos seus descontínuos transbordos,
só permite que o desejo vá até suas margens.
a bolha de sabão
é tão frágil, morre quase ao nascer.
A teia de aranha faz uma mandala perfeita
nenhum humano faz senão suspirar de vontade.
O tecido escorrega, fura, espeta, não acerta,
parece concreto,
mas é como uma água pegágel só momentaneamente
fere os orgulhos de conseguir.

o barro é frio e macio, poderia ficar horas e horas sem lhe dar forma
com medo de marcar de detalhes e entalhes, da imperfeição o que é já é bonito
sem forma definida.
As ondas sonoras tem sua dança, se propagando como uma configuração feérica
será por aí que encontraria a melhor demonstração?

Quero conseguir atravessar as superfícies, pra alcançar um infinito possível.
Quantas vezes tenho que morrer e renascer na arte, até conseguir deslimitar-me?
Quando haveria o meio de extravasar os planos, as superfícies, as tridimensões,
as funduras e depressões, as curvas e os riscos
labirínticos.
Até onde posso ariscar ir mais longe?   Onde seria esse longe....
Há contornos aparentemente incontornáveis pra alcançar a forma de alma
aquela que é paisagem de sua casa interior.
A que você realmente é. Sem adentrar explicações.

Continuum em investigar

abril 27, 2018

Ansiar, verbo intransitivo ( porém transitável)

Todo dia as coisas mudam de lugar
 a mesa era aqui
 o poema era aquele
 agora é outro
a cadeira que costumava estar presente cá
agora é lá
as paredes não pintei
 porque violeta é a cor
estrutural da alma
mudam os tons somente.
Aqui, apenas as perguntas-devires tem ressonância.

Acostumei e desacostumei
será que os que estão comigo, acompanham a volúpia
e o volúvel que são esses estados
passageiros?   ( pergunto sempre perguntas que não tem respostas fáceis)

hei, esperaí: ...:  era a pergunta que não fiz
olha de novo,
as pistas do universo são deixadas mais de uma vez
pra que não nos percamos
da pergunta?
hei, outra vez; queria saber: ...:  e soube.
hei, outra vez; haverá dia que brilha pra nós amanhã?
hei, outra e sempre: há perdão disposto na alma
que não camufle e nem interceda na sinceridade?


sempre haverão perguntas, e respondidas, outras substituem as primeiras.
e se existe fim pra perguntar, haverá fim pra desejar
:seres desejantes.
porque perguntar, é outro nome pra existência.

abril 24, 2018

ImaginAção

                                                             

"O mundo real é muito menor que o mundo da imaginação"  Nietzsche

Em um dos estudos de Piaget, ele observa o desenvolvimento mental da criança, e o que esta considera real e fantasia. Constata que há um momento em que a criança consegue discernir o que é real, do que é fantasioso.   A realidade observada, da realidade imaginada. Isso diz respeito daquilo que é compartilhado entre todos, e do que é imaginado somente dentro de si mesmo.
Essa é a diferença principal.

Um novo passo, adulto, e da volição pensamento-comportamento, numa outra forma de ver as coisas é quando se faz essa ponte consciente, entre um estado e outro.
A minha realidade particular e imaginada, se torna realidade compartilhada quando planejo mentalmente uma ação, e da minha imaginação, se torna ato concreto.

Do desejo interior de transformar a realidade, eu elaboro, imagino, vejo-me fazendo a ação, até transforma-la em atitude concreta., deliberadamente consciente de sua amplitude.
Percebo então, que o mundo imaginado ( ou imaginário, imagético, fantasioso), não é senão uma das centelhas processuais do pensamento e ação; da imaginação à realização.

( A poesia está aí, imaginação e a tal criatividade, é uma das etapas do processo consciente que "salta" de si; é criação e recriação da realidade.)

abril 17, 2018

Boys on the side *

É uma de declaração de amor ao rock... Das mulheres.  Mulheres no rock tiveram várias fases; do grito ao sussurro, da ferocidade usando todas as cordas vocais, até grunhidos, vozes melancólicas, súplicas melodiosas,  suspiros e gemidos sexies de amor e ódio.   Tudo é tão intenso e voraz, seguindo batidas e acordes voluntariosos, que eu só queria essa entrega total ao volume. 
Vou começar com ícone de minha adolescência, Ms. Courtney Love. Adolescência era sinônimo de rock grunge , e um estilo subestimado hoje, era minha devoção total. Todos olhavam, e ainda olham, como o Kurt era lindo e etc e tal.. e eu só via a esposa odiada. Em verdade, eu amava o som de ambos, Kurt foi um excelente letrista. Ler o que ele escrevia era tão bom quanto ouvir o Nirvana. Mas aqui só falarei delas. Praticamente só ouvia isso por um período. E Courtney era o tipo da mulher nos vocais e na vida, que eu achava incrível, o esplendor da Deusa personificada em cabelos descoloridos, bagunçados, roupa puída, unhas descascando, batom em excesso e borrado. Uma anti-heroína (usava também) que era minha heroína musical.  Por anos foi até minha senha em contas de email!
 (E a versão dela de Hungry like a wolf do DuranDuran é melhor que a original) Desculpem os puristas..

The 80's. São os melhores, e até hoje estão sempre na frente no que ouvir. Nisso, o pós punk britânico é o melhor rock que existe, e acho que estou sendo modesta.. Uma amiga minha Leila, diz que eu danço parecida com ela, Susan Ballion ( pra minha alegria, pois não sei nada de samba pagode e afins, e essa cidade sempre me impõe isso, um saco!). Mas a voz poderosa, e meio profética, os o l h o s tão expressivos e carregados de maquiagem, bem marcado daquela década musicalmente tão rica. É uma época que a realidade lésbica podia também aflorar, por meio dessas vozes e posturas extravagantes. Outras cantoras e bandas com musicalidade do gótico ou próximo de um folk-gothic, chamam de som do etéreo, e ouvindo também percebo ser isso. Afora denominações, essa época costuma me fazer levantar de onde estiver e começar a dançar, seja onde for. E tem uma pegada teatral! Teatro do burlesque.  Ouça Vanishing - e se transporte pra uma noite de lua cheia, floresta com névoa, e criaturas misteriosas à espreita.

Preciso falar do feminismo aqui. Começar a ouvir o Hole e outras bandas com essas cacterísticas, dizem respeito à pessoa que eu queria ser adolescente. Not the girlie of daddy. Nada de roupinhas fofas, comportadas, nada que me fizesse parecer uma garota direita. Gostava e gosto da descompostura.  Ver mulheres no rock,  -terreno sempre muito másculo e machista- me inspirava e o movimento Riot Grrrls, tal como o Pussy Riot com teor político na música e nas performances. Tudo isso representa liberdade. Poder ser de outros modos, escolher como se quer ser, vestir, se relacionar ou comportar-se.














* Boys on the side: é também o nome de um filme sáfico-on-the-road que adoro, 93 ou 94, não lembro agora. Com a Whoopi Goldberg, Drew Barrymore e Mary Louise-Parker.