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outubro 28, 2018

Um copo de cólera

* Solo-manifesto de Roberta Nascimento, apresentado na Mostra Devires,
em outubro de 2018, no Goethe-Institut Salvador (ICBA).
Assisti um espetáculo, que realmente  nos faz pensar nesses tempos, assisti algo que já havia visto e ouvi tantos anos antes. Já havia lido com Marcelo Rubens Paiva, já havia lido com Saramago houveram tantos avisos...
Repetição dos atos, civis, e coletivos.
Espetáculo tinha o ritmo ofegante e angustiante da leitura dos milhares de presos políticos. Leitura incômoda, dolorosa da verdade. Passado que se faz presente. Repetimos.
É uma mãe que está sendo amordaçada e estuprada, é um irmão de alguém, que lhe é arrancada as unhas, uma adolescente que é golpeada e leva choques...  São inúmeros relatos sem fim...
Ouvia, sentia todos se constrangerem: o rosto que a gente vira de lado pra criança na rua.
É o mendigo que já faz parte da paisagem.
São os idosos que não conseguimos nem olhar, que dirá sentir a solidão...
A Constituição Federal Brasileira na foto triturada no liquidificador com sangue, suor e lágrimas ( por ironia os mesmos do Carnaval).
É do esquecimento de todos os humilhados, marginalizados, retirados da dignidade
todas que vivem na miséria subhumana, que retornam pra exigir que os olhemos, que pensemos neles, que nos horrorizam e causam piedade ao mesmo tempo.
Que existem, que respiram sobrevivendo nas esquinas, das cidades, dos interiores do campo, as (os) campesinos, nos quilombos, nas aldeias, nos guetos lésbicos/gays, LGBTTS.
Festa da democracia! Dos demonizados e exilados, apartados da cultura, dos bons modos e bons costumes. Que voltem! E tomem todos os espaços.
Um réquiem pros condenados . 
Os esquecidos agora serão notícia. Mais extermínio, pra validar nosso "estilo de vida" tão caro...

Há muitos anos vou em passeatas, vou em comícios, o mesmo dizem em livros, o mesmo foi dito no show de Roger Waters, o mesmo disseram os economistas mais influentes no mundo, cientistas políticos avisaram, psicólogos se posicionaram, sociólogos, governantes oposicionistas, juízes antipetistas: todos. Todas as categorias de pessoas do mundo civilizado, respeitoso, de prestígio dizendo o mesmo: a barbárie no voto brasileiro.
O que estávamos esperando?
Esperei até hoje que a sensatez fosse prevalecer.
É a festa da dor, do sadismo, da maldade.

Todos e todas fizeram como se isso fosse impossível. Todos e todas, fecharam seus olhos ao óbvio!
Mas nem ter medo, ou paralisar, a vontade de reagir é maior.

Agora, há urgências que me movem. O inacreditável, se faz presente.
é preciso mais que palavras, mais que ditos vazios. Mais que posturas de ativismo de sofá.
 Me nutro de meus amigos e de suas indignações, que são as minhas. Fiz nova família.
 É um copo de cólera que vamos todos beber amargando os dias. Exclusões que nos excluem também.
 Por livre escolha democrática, claro..

"...portanto companheiros, não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir,
vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda"
                                                                                
Caio Fernando Abreu viadamente me lembrando e insistindo,
E Chico, pra sempre repetindo :