
Agir politicamente deveria ser
uma das esferas da vida, assim como o emocional, espiritual, racional, psíquico, etc. Quanto mais houverem descobertas sobre o “plano”
existencial do que fazemos. O ser humano é múltiplo em todas suas dimensões,
não há porque se dedicar apenas a uma, se limitar em uma, esquecer e minimizar as
outras potencialidades, todas as habilidades não exploradas, nem sequer
descobertas. Em tudo o que fazemos, tem repercussão interna e externa, tudo vem
e volta pra sociedade, e pra o individuo, o formador de sociedades. E tudo
importa, Antropologia, Psicologia, História, Política, ciências tal e tais.
Procurar o desconforto, caçar a inquietação, investigar as angústias,
transformar em arte, em movimento, palavras, tato, em beleza: é terapêutico. A
política não é restrita à movimentos políticos, apenas. Também é, e talvez, o
conjunto de idéias pensantes, em engajamento e conflito saudável, gerador de sementes em planos de ação. Pessoas com idéias e ideais em comum, com ânsia de se
organizarem, sim, mas não somente. Política faz parte do dia de qualquer um, do
cotidiano; você sai de casa, e atravessa o transito caótico de sua cidade, vê
infrações, vê gente nas ruas, expressões tensas, cabisbaixas, vê greve daquilo
lá, um outro ajudando alguém, no centro da cidade mil outras pessoas na
multidão tentando se expressar, vê manifestações do indivíduo no meio da
multidão. A gente tem que ser militante de atividades do mundo, captador das
antenas visíveis e invisíveis dos anseios, dos desejos, dos dizeres das
pessoas.
Organizar-se em si mesmo e ser
portador da expressão. Isso é ser um comunicador, político, psicólogo, alguém
que se movimenta e absorve os quereres vadios, mundanos. Abarcar o conhecimento
e transformar em algo. Se
se compreender interesses públicos, civis, do cidadão “normal” e em seguida,
simultaneamente o de seu sistema de governo, sua participação sobre outros é
efetiva. Por exemplo, ler o jornal, e ver o que acontece além das linhas. Porque
é além das linhas que está o pensamento econômico e político, de poder atuante.
Observar o sintoma neurótico é, observar o sintoma total de uma família, que se
organiza de tal maneira que um ou uns, são mal adaptados, por conta da
educação, (ou falta desta), de valores, de formação e condução mal resolvidos,
hierárquicos, socialmente incapacitantes, neurotizantes.

O ser humano é um ser antes de
tudo desejante de algo, esse algo é constantemente substituído por outro algo,
e desejamos coisas possíveis e impossíveis, mas não existe deixar de desejar.
Na série “Two and a half men”, o personagem de Charlie Sheen quer achar uma
solução para problemas de ereção. Uma psicóloga lhe dá duas opções. Fazer
análise ou ser hipnotizado. Ele escolhe a segunda, e ela pergunta: “sua saúde
mental não é mais importante que alguns orgasmos?”
Charlie responde “Não é mais
importante nem mesmo do que um”. Se ele procurasse o francês Lacan ia ouvir sua
famosa frase “você não é obrigado a gozar”. Mas e daí..? Não é obrigado, mas
gozar é muito bom, e ficar impossibilitado de gozar é a maior violência pra
ele, então discordo dos psicólogos que acham que o prazer é tirânico,
juntamente com as teorias que ampliam ou reduzem o gozo a depender da
conveniência. Devemos gozar totalmente, amplamente, infinitamente com toda a
potencialidade do corpo, espírito, razão, emoção... Sem economia de um ou de
outro, fisicamente e politicamente incluídos. A capacidade de gozar da (e com
a) vida, é o objetivo e o próprio caminho a seguir, o fim e a circunstância que
permite a.
Se eu quero muito algo, seja
alguém, seja mudar minha realidade, coisas que podem ser perigosas, coisas que
seriam imorais, quero e não consigo, tento e sou frustrado, consciente ou não,
ameaçado, o castigo social encurrala, oprime, desgasta as tentativas, e logo
não irei mais tentar. Vou alucinar, vou delirar, posso entrar em pânico, deprimir, mas
irei sonhar e desejar, o desejo ficará sublimado, ou latente. Mas não morto. O
desejo não morre nunca, se transforma em outra coisa. Mais socialmente aceita.
Um sistema político “cuida” de nos acariciar a cabeça, enquanto nos mostra
outra coisa pra desejar, nos confunde para direcionar o desejo. Aprendemos a
ser contornados, direcionados para que nosso desejo primitivo e original seja
canalizado para atividades politicamente ajustadas ao sistema. Na verdade nos
tornamos passivos. Corpos dóceis ou imbecilizados de tanta mansidão. Um sintoma
neurótico particular é o mesmo do todo coletivo. Aprendemos a nós mesmos já
fazermos o contorno e a tradução do querer, e amparados pela TV, compras,
mídia, comida, sexo... Uma agência de controle social ajuda outra. Uma mão lava a outra, e todas se exoneram juntas. Todas se
dão as mãos numa rede que conspira a passividade e o bem-estar social.
Modificadores sociais tem espaços garantidos como facebook, um blog inócuo como
este, uma galeria de arte, jornais esquerdistas(o que quer que isso signifique hoje), teatros, e por aí vai.
Que são espaços igualmente
sociais, adequados e aceitáveis. Como o playground da subversão. Podem ser inconseqüentes
aí, podem ser heróis e marginais, berrar, protestar, fazer músicas, quaisquer
expressões, desde que não invadam o trânsito, a notícia não vá parar em jornais
de grande circulação, a CPI ou o impeachment vire nada ou um cartum no máximo.

Os que conseguem ser vistos e
ouvidos, os subversivos, iconoclastas, anarquistas que transbordam de gozo de
mudanças, podem ser presos políticos, terapeutas marginais, artistas “de rua”,
de palavra vagante, atores do absurdo possível, crível do real. Indutores de
transformação, capacitadores de corpos rebeldes, e mentes idem. Vou pensando,
sentindo e gozando com estes.