Memórias de infância que guardo, são aquelas
que vêm com os sentidos. Catar e comer o licuri em Itacimirim. Eu
achava que o licuri vinha das vacas que pastavam ali, (na verdade elas comiam
junto com tudo que engoliam, e depois saía, e a gente, os guris, catavam,
quebravam a casca dura e comia, parecia leite ninho sólido!). Brincar de
explorar as coisas do mato, montar cavalo, galopar, correr neles. Uma aranha
“de estimação” embaixo do banquinho verde. A cozinha de minha vó, o cheiro da
comida, os temperos, e as histórias, o cafuné. Pescar com meu pai, o cheiro do
mar. Som das ondas quebrando. Aprender como pegar siris, sem que
prendessem os dedos nas garras. Algas marinhas faziam bem pra pele eu achava, e
me cobria delas. Os ovos dos bem-te-vis, eram vigiados ostensivamente pelos micos
sagüis. E eles sabiam os horários que um dos pais deixava o ninho, pra poder
roubá-los. Mais de uma vez, vi correndo com os ovinhos na boca, e os bem-te-vis
enfurecidos, dando bicadas em rasantes de vôo. A guerra das formigas (guerra
mesmo, só que sem sangue, mas faltando pouco pra isso) entre clãs, tribos,
espécies diferentes. Os filhotinhos cegos e sem pêlo de minha cadela que já
morreu.
Vi uma baleia morta uma vez. Gigante,
uma jubarte. E era uma baleia jovem disseram. Não parecia tão majestosa naquela
posição com a cara na água, o rabo na areia. Se perdeu? Quis morrer? Se afastou,
e veio morrer encalhada na beira mar. Não consegui tocar nela, e ela estava a
menos de um metro de mim. Cheiro de uma tonelada de peixe morto, e urubus
voando no céu...
Com 17 anos, depois, muito diferente.
Sexo sem julgamento, instintivo, imposição hedonista minha, de não julgar e me
misturar, conhecer, experienciar tudo no corpo, o corpo vai saber entender,
significar, depois eu traduzo os significados. Depois algum vazio e melancolia.
Esvaziar, preencher, e novamente. “Se eu tiver que caminhar errante,
vou errar pelos meus caminhos, mas pelo menos serão meus” dizia com 16.
(Orgulho inabalável nessa idade, podia morrer no minuto seguinte e não estava nem aí, criança queria ser imortal, infinita, hoje nem sei...) Hoje me
vejo diferente de outras eus. Não que desgoste, mas sinto falta de algo que
buscava. Todas as minhas lembranças são, memórias dos sentidos; se lembro de
voinha, de meu pai, dele, dela.. é um
determinado cheiro, gosto, som, superfície. Esses sentidos, mais as situações,
iam dando inteireza, cor, vida, e conhecimento. Hoje, em comparação tudo parece
esquálido de cor, insosso de gosto, pobre de poesia, e de conhecimento
rasteiro. Não é à toa que os poetas adoram eternizar a infância. Entendo bem o
que é isso.

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