Demorei até, pra começar a escrever, e pensar a dança com o
corpo. A gente usa demais a mente e esquece de outras formas de inteligência, e
de outras compreensões e apreensões dos outros.
Voltei a dançar, um pouco timidamente no início, depois,
percebo-me com prazer, investindo meu corpo em movimentos novos, arriscados.
Dançamos primeiro sozinhos, ouvindo o que cada parte do corpo pode, ou sabe
fazer, como explora o chão, e o ar, e o quanto nós gostamos de desenvolver,
estender esse movimento. Por aí, eu sinto onde está a minha tensão, o tornozelo
vai e gira bem, mas não aguenta o que o cérebro comanda; agilidade, destreza, e
vaidade. Paro. E respiro, não vou brigar comigo.
Entendo que ganharei mais se tratar com carinho e menos
rigor; é uma busca, disciplinar o corpo para aquilo que inconscientemente ele
está preparado, mas não sabe que sabe. Até que você se arrisca. E vai! Aí se empolga
demais e trava de novo. Nova escuta e compreensão. Começamos devagar, acordando
aos poucos cada parte adormecida.
Só movimentos com as mãos no chão, sem tirar, tudo, mas as
mãos no chão, uma regra pra explorar e depois brincar. Depois os pés, só eles.
Ou a cabeça. E por fim, todas as três extremidades em contato carinhoso com o
que nos sustenta.
Me vejo avançando devagar em todas as direções, a busca, a
procura, por explorar e conhecer as possibilidades e extensões que cada parte
em si quer, deseja ir, e como o todo se adequa. Adequação e equilíbrio. E
curiosidade. Meu prazer em cada ponta e extensão de mim, numa coordenação
interna, externa e principalmente entrecampos, a pele. O contato que entende e
decide em conjunto.
Esse é um momento, aliás, uns momentos. Em seguida passamos
pra tentar rolar o corpo, primeiro livremente e com delicadeza, Treinar ir com a
mão e o braço primeiro, ou o pé e a perna. E a delícia suprema que é descobrir
com o outro corpo, outra pessoa, com irmos juntos. Como se escolhe esse alguém?
Como se é escolhido?
No consciente eu sei que vou na direção de alguém mais leve.
Mas me dando conta disso, arisco tentar o peso e alguém diferente de mim.

Sempre começo um pouco devagar, pra ir conhecendo como a pessoa se move, pra ir avançando à medida que sinto segurança e sintonia, afinidade de movimentos e decisões compartilhadas.
Tento pensar como eu duplo, uma duplicidade diversa de mim
mesma, mas extencionada. Quero o raciocínio do tato em duplos compreendidos. É
o exercício da paciência, e da escuta do que queremos. O que eu quero, o que
ela(e) quer. O que faremos juntos com esse querer.
A mediação do querer e decidir sem palavras, com gestos. Acho
importante ter claro que somos pessoas desejantes, que tomamos decisões todo o
tempo, e assim também é na dança, no contato improvisação. Sem a voz, a fala,
mas a clareza da intencionalidade.
E não competir pela escolha ou decisão, “Vou mais rápido?” “Espero pelo outro?” Eu dou
mais peso do que poderia dar? Ou menos, pra preservar a mim ou à ela(e)? Estou
respeitando meu corpo, minhas medidas, meus avanços e limites..?
Se estou desmotivada, desenergizada, ou o contrário, acelerada
demais, a dança desafina.
Eu paro. Se no inverso, ela (e) está em desacordo, estamos
descompassadas, eu sinalizo também. Parada pra demonstrar a intenção. Parando
ou indo mais lenta, se houver uma boa escuta, é compreendido e retomamos pra
tentar a mudança. Se não, se não houver fineza na escutatória, vou cada vez mais lenta, ou mais rápida, a depender, e
me individualizando numa dupla, o que não gosto nem quero. Faço tentativas e se
não consigo em conjunto, mudo de parceria, de dupla.
As vezes não é tão claro qual, quem, está desafinando,
porque há algumas regras, mas há uma fluidez e plasticidade que definem o C.I.
E diferente das aulas, na Jam, tudo é mais ágil, no sentido
das trocas de pares, de decisões corporais, da sutileza do tentar e assegurar a
decisão. E não tomar pra si todas as decisões, de se permitir ser levada às
vezes, de se doar.
A liberdade do toque dá lugar á divisão de papéis, do dar
força, equilíbrio e segurança, facilitar a leveza ou o peso, e o brincar sério
de criar.

Muito bom esse relato, Sol! Valorizo muito esse "brincar sério de criar".
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