“Tenho certeza de que, enquanto
descíamos a grande escadaria, eu parecia ser a mesma de sempre, uma menina
embasbacada de doze anos, toda braços e pernas. Mas secretamente eu sabia que
havia sido transformada, comovida pela revelação de que os seres humanos
criavam arte, de que ser artista era ver o que os outros não conseguiam ver.”
“Mas uma noite, enquanto
assistia à canção de Bernadette, com
Jennifer Jones, fiquei pasma ao ver que a jovem santa não pedira para ser
escolhida.
Era a madre superiora quem desejava a santidade, apesar de
Bernadette, uma menina camponesa humilde, ter sido a escolhida. Isso me deixou
preocupada. Perguntei-me se eu realmente tinha vocação de artista. Não me importava a miséria de uma vocação, mas temia não receber o
chamado.”
Era a madre superiora quem desejava a santidade, apesar de
Bernadette, uma menina camponesa humilde, ter sido a escolhida. Isso me deixou
preocupada. Perguntei-me se eu realmente tinha vocação de artista. Não me importava a miséria de uma vocação, mas temia não receber o
chamado.”
(...)
“Na guerra entre a magia e a
religião, a vitória final teria ficado com a magia? Talvez o sacerdote e o
mágico tenham sido um só, mas o sacerdote, aprendido a humildade diante de
Deus, tenha trocado o encanto pela oração.”
(...)
Nos períodos em que me sentia
por baixo, perguntava-me qual era o sentido em criar arte. Para quem? Estávamos
animando Deus? Estávamos falando com nós mesmos? E qual era a meta final? Ter a
própria obra engaiolada nos grandes zoológicos da arte – o Modern, o Met*, o
Louvre?
"Eu ansiava por honestidade, mas
encontrava desonestidade em mim mesma. Por que se comprometer com a arte? Pela
autorealização ou pela arte em si mesma? Parecia um capricho somar-se à massa
de excessos, a não ser que isso oferecesse iluminação".
Met* Metropolitan Museum.
Só Garotos / Smith
Patti; São Paulo, Companhia das Letras,
2010. Págs 20, 63 e 64.
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