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novembro 25, 2018

Uma célula, um átomo
distônico
que liberdade escrever, renascer!
me vangloriando das concordâncias e reticências subliminares

quanto a gente fala, e nem sente
quantos livros lidos, as falas perdidas
entrecortadas, incomensuráveis
ansiosos vir aléns (disse aliens)
E eu:
Esses incontáveis  vapores
horrores,
suores
sabores,
agora posso ser boba, agora posso ser puta
quem vai me julgar com as lentes morais da pequenez?
lógica disfóbica
agora não demova minhas estratégias d'empoderamento
e despudoramento

a gente fala de livros e profundidades,
com tanta reverência,
mas pouco fala de
amor.  Essa palavra-tabu.

voz corpo alma grito veloz alcança o sub tons em meio a sons
 f e l i c i d a d e  é errar...
Ah, mas com tal maestria,
e desembaraço autêntico...!


novembro 07, 2018

Perfumar o olhar

mas tudo isso baby,
é só porque a gente tá viva
e vivendo os dias.
tem (des)encanto
tem (des)encontro
mas tem poesia.
E é vivendo no how-now ,vibe agoraespanto
espantando mágoas
ou futurista da magika, ansiando os amanhãs;
vibrando o hoje.
E é só porque a gente tá vivo
e vivendo as agruras
se sente forte, e inteira.
Respirando, e pirando às vezes: dá vontade de rir e chorar
simultâneo
dessa tragicomédia tupiniquim brasileira
e fuleira.
e é só porque é sério, muito sério,
tudo isso,
que tenho necessidade imensa de brincar.
fazer cócegas na realidade q arde
perfumar o olhar.




novembro 03, 2018

Levantar e continuar

...manter o Amor.
Recomeçar, sim.  Depois da eleição, e dos dias difíceis, intermináveis que se passaram. Existir. Se cuidar, cuidar dxs outrxs. O ultimo domingo, da contagem de votos, acabei indo pro Rio Vermelho com uma amiga, não ficamos nem 10 minutos. O clima senti estranho desde ali, senti que íamos perder. Os rostos angustiados, tensos, ansiedade. Mas eu continuava com minha esperança. Houve briga, violência policial lá, uma pessoa que estava comigo, conosco nas ações de Vira Voto, foi agredida de forma brutal, e foi hospitalizada. Soube depois que se recuperou, e está bem. Até saber, fiquei louca querendo ir até o hospital, vê-la, saí pedido informações dos grupos, queria achar o hospital, ao mesmo tempo que me acalmava e tentava acalmar/confortar as companheiras.
Na casa de minha amiga, chegamos já com o resultado em forma de fogos, de gritos "Bolsonaro presidente" "morte aos petralhas" "morte a Lula", ...
Os prédios gritavam, isso foi me dando aperto no peito. Não sei descrever. Não era desespero, era tristeza enorme, e descrença.   Não consegui comer, não bebi quase nada. E queria não ficar sóbria queria esquecer de tudo, apagar, esquecimento. Mas fiquei, com o corpo doído, sem voz, inacreditavelmente pensativa...e revoltada. ''Amanhã continuar, amanhã sim insistir, porque o hoje, é amargo demais, mas amanhã vou estar viva ainda, e vou continuar tentando..." Se a experiência da realidade me mostra o vazio, é isso que vou digerir. É isso apenas que vou sustentar, e ficar com.
Saí andando, já bem mais tarde da casa da amiga, fui andando até a minha, e tanto sentimento dentro. É mistura de tanta coisa, de esvaziamento, de querer preencher, mas sem saber o que cabe, porque o coração morreu um pouco aquela noite...

Nos dias que seguiram fiquei em silêncio. saí de vários grupos de ações em que estava.
Mas ainda estou num grupo, nos encontramos, nos reunimos, falamos, desabafamos, nos escutamos.
Houve dinâmica pra acolher. Houveram abraços. Soubemos até sorrir. E não foi difícil.  Foi muito, muito bom. Força, estamos juntas, vamos continuar juntas e fortes.  Planejamos outras ações, outro foco, reorganização, planejamento, reestruturação.  Isso tudo nos organiza internamente também.
Saímos de lá todas bem, que bom estar entre as mulheres, grupo de resistência, fortalecida!  Saímos com ideias concretas, e novas datas e posturas. Então o que temos, na pós ressaca de eleição não é nenhum paraíso, mas também nem o outro extremo, de escombro emocional, mas um caminhar possível, e contínuo. Aos poucos...
 O Amor vai continuar: nas ruas, nas nossas casas, até entre os familiares, estamos empenhadas em achar o modo, os caminhos pra isso.  É preciso continuar, é preciso

novembro 02, 2018

Terra dos Ossos



 “Para existir basta abandonar-se ao ser
Mas pra viver
É preciso ser alguém
É preciso ter um OSSO,
É preciso não ter medo de mostrar o osso
E arriscar-se a perder a carne.
Homem sempre preferiu a carne
à terra dos ossos.”

Antonin Artaud, trecho de ‘Pra acabar com o Julgamento de Deus’, transmissão radiofônica. 


outubro 28, 2018

Um copo de cólera

* Solo-manifesto de Roberta Nascimento, apresentado na Mostra Devires,
em outubro de 2018, no Goethe-Institut Salvador (ICBA).
Assisti um espetáculo, que realmente  nos faz pensar nesses tempos, assisti algo que já havia visto e ouvi tantos anos antes. Já havia lido com Marcelo Rubens Paiva, já havia lido com Saramago houveram tantos avisos...
Repetição dos atos, civis, e coletivos.
Espetáculo tinha o ritmo ofegante e angustiante da leitura dos milhares de presos políticos. Leitura incômoda, dolorosa da verdade. Passado que se faz presente. Repetimos.
É uma mãe que está sendo amordaçada e estuprada, é um irmão de alguém, que lhe é arrancada as unhas, uma adolescente que é golpeada e leva choques...  São inúmeros relatos sem fim...
Ouvia, sentia todos se constrangerem: o rosto que a gente vira de lado pra criança na rua.
É o mendigo que já faz parte da paisagem.
São os idosos que não conseguimos nem olhar, que dirá sentir a solidão...
A Constituição Federal Brasileira na foto triturada no liquidificador com sangue, suor e lágrimas ( por ironia os mesmos do Carnaval).
É do esquecimento de todos os humilhados, marginalizados, retirados da dignidade
todas que vivem na miséria subhumana, que retornam pra exigir que os olhemos, que pensemos neles, que nos horrorizam e causam piedade ao mesmo tempo.
Que existem, que respiram sobrevivendo nas esquinas, das cidades, dos interiores do campo, as (os) campesinos, nos quilombos, nas aldeias, nos guetos lésbicos/gays, LGBTTS.
Festa da democracia! Dos demonizados e exilados, apartados da cultura, dos bons modos e bons costumes. Que voltem! E tomem todos os espaços.
Um réquiem pros condenados . 
Os esquecidos agora serão notícia. Mais extermínio, pra validar nosso "estilo de vida" tão caro...

Há muitos anos vou em passeatas, vou em comícios, o mesmo dizem em livros, o mesmo foi dito no show de Roger Waters, o mesmo disseram os economistas mais influentes no mundo, cientistas políticos avisaram, psicólogos se posicionaram, sociólogos, governantes oposicionistas, juízes antipetistas: todos. Todas as categorias de pessoas do mundo civilizado, respeitoso, de prestígio dizendo o mesmo: a barbárie no voto brasileiro.
O que estávamos esperando?
Esperei até hoje que a sensatez fosse prevalecer.
É a festa da dor, do sadismo, da maldade.

Todos e todas fizeram como se isso fosse impossível. Todos e todas, fecharam seus olhos ao óbvio!
Mas nem ter medo, ou paralisar, a vontade de reagir é maior.

Agora, há urgências que me movem. O inacreditável, se faz presente.
é preciso mais que palavras, mais que ditos vazios. Mais que posturas de ativismo de sofá.
 Me nutro de meus amigos e de suas indignações, que são as minhas. Fiz nova família.
 É um copo de cólera que vamos todos beber amargando os dias. Exclusões que nos excluem também.
 Por livre escolha democrática, claro..

"...portanto companheiros, não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir,
vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda"
                                                                                
Caio Fernando Abreu viadamente me lembrando e insistindo,
E Chico, pra sempre repetindo :





setembro 29, 2018

Sobre a imposição às mulheres

Que nenhuma pessoa imponha como devo sentir, me comportar e ser.
Que recuse toda e qualquer submissão de caráter em direção ao proveito ou satisfação alheia.
Que recuse, reaja, rejeite e combata qualquer ameaça de moralidade, destinação de conduta real, espiritual, ou de qualquer ordem.
Que manifestações opressivas sobre a feminilidade, seus ciclos e a natureza feminina pra docilizar, obedecer, e amansar sejam destruídas.
Nenhum comportamento seja explícito, ou oculto, de se tentar domar uma natureza selvagem, lasciva, intuitiva, e exuberante, deve ser tolerado ou sequer considerado.

Tentativas de se tolher a natureza feminina selvagem foi há séculos, e ainda hoje violências, mas com a grande diferença atual da reação, natural à investida de domesticação e adequação às instituições do patriarcado, sejam leis instituídas, sejam de oralidade aceita e imposta. De amordaçar, de subjugar, minimizar, humilhar, desacreditar: serão rechaçadas.

Nenhum muro mais. Nenhum impedimento a ser o que se é. Nenhum controle que não seja superado por sua resistência e de contra-controle natural.

setembro 17, 2018

Pagu song

Ela caminha por esse mundo
 como se esse mundo fosse dela.
Como se o mundo (todo ele) fosse antigo e conhecido.
 É caminhar dissonante,
caminha errante
vê e sente a natureza como parte sua
pode ser cruel e acolhedora,
dúbia, sincrônica, alheia.
Tem olhos grandes,
como grande é a alma
e se assusta, por isso morde,
 com as barreiras normais,
as barreiras sociais, a mesquinhez
 a improbabilidade de viver entre os seus.
É dar cada passo, farejando os estados.
Retalhos.
Reconhecendo.
Pode estar nesse mundo agora
tão verdadeira é a força de sua vontade
volição
coração
está vestindo agora as roupas humanas
como se sempre fosse humana.
Como se sempre fizesse parte dessa constituição
 não há dúvidas
 Ela se veste bem, quase passa por humana.
Num instante, e em outros
agarrou outra vibração, avatar mal carcomido
se transformou
Agora, quem ela é:
Eu não ouso dizer
Não reconheço sua pele
seu olhar mudou
Como mudou seu farejar o mundo
Ela agora é outro ser, pele molhada cheia de dores
irreconhecível.
Caminhava, como se soubéssemos, desde sempre
as pistas, as pegadas, o faro, a pele,
mas tudo mudou.
Ela é só mais  uma, caminhante,
com seus quereres, que antes não rimavam
e agora menos ainda.