Alguns de Rimbaud. De Arthur Bispo do Rosário, de Estamira,
de tantos outros à margem, à beira do mundo, e beirando uma criatividade
alucinada, da lucidez mais delirante.
Fico pensando no que acontece com estas figuras, ora personas
non gratas na sociedade, ora são os que espelham essa brutalidade, sem
preservar a própria pele.
Estamira morreu aos 70 anos, em 2011. Alguma vez saiu do
lixão de Gramacho? Sua vida, sua loucura irreverente, por vezes cômica e
genial, lhe rendeu alguma mudança, melhoria de condições, de tratamento..? Temo
que não.
Antonin Artaud foi poeta, ator, dramaturgo. Depois internado
num manicômio, e deixado por lá. A institucionalização da loucura.
Na época, local para se alocar e estudar estes casos
extremos em que o ser humano luta consigo mesmo.
Ou mais provavelmente, luta com as leis morais, as
instituições sociais, as regras banais, ordens absurdas e convenientes. Rupturas.
Me esforço por entender o que acontece em relação à mim
mesma: como se enclausurar tão fundo dentro de si? Não é pagar um preço caro
demais... ou estamos falando em liberdade, em verdade.
É o divórcio da sociedade que poderia nos fazer livres? Será
preciso infringir algumas leis que nos ferem profundamente, maltratam
internamente nossa natureza, pra nos tornamos nós mesmos. Se com o divórcio da
humanidade, pudéssemos enfim respirar, mais humanos.
Penso em mim mesma.
E se a sociedade antes não o reconhecia como artista, com brilho
promissor, depois da separação com a sociedade, depois do egocídio, ainda haverá
luta consigo, talvez.
E se não houve reconhecimento antes, se não houve empatia,
alteridade; então porque diabos haveria de ele ou ela desculpar-se à sociedade
de ser quem é, ou de tornar-se agradável, socialmente adequado, mentalmente
equilibrado? ¨Pra que se ajustar a um mundo doente¨, como já se perguntava Krishnamurti.
Respondo sem pensar, pra mim mesma; pra modificar, fazer
algo, mesmo que momentaneamente sejam essas poucas linhas, pra em seguida ser
movimento em ação, prática antimanicomial. Essa minha resposta impulsiva e
romântica é também minha tentativa mais honesta de dizer, eu me sinto filha de
Artaud, de Estamira. E também não sei responder pra mim mesma sem parecer
ingênua, agressiva, passional demais, feroz...
Mais, sei que Clarice se sentiria profundamente honrada,
lisonjeada. São da mesma espécie metafísica. Sozinha, na minha loucura sadia
que me protege da banalidade mental que vivemos.Esse limite que divide a linha
tênue de minha sanidade frágil da loucura sólida, concreta é o meu caminhar
trôpego, minha dança ébria.
- Cartografia do Abismo, Direção de Luis Alonso, com Caio Rodrigo.
- Estamira, com Dani Barros, direção de Beatriz Sayad.
(Um acidente deliciosamente ridículo, antecede minha entrada ao teatro; andando pelo centro da cidade, eu reclamando da quantidade de lixo que produzimos e espalhamos nas ruas "A cidade está imunda! Olha quanto lixo..em toda parte. Que porcaria, vê essa calçada...!" Aí pronto: entro com os dois pés e sandália no esgoto. Da raiva inicial eu dou uma gargalhada homérica, Estamira devia estar ali rindo comigo).

'Sol, li o texto que vc escreveu e fiquei realmente muito tocada... Obrigada pelas suas palvras tão lucidas e sensíveis...'
ResponderExcluirBjao,
Mari